miércoles, 7 de diciembre de 2016

QUARAR OS ROSTOS

ESTA É A IDÉIA DE UM FILME QUE AINDA NAO FIZ MAS FAREI
SAO MUITOS ROSTOS QUE PRECISAM SER COLOCADOS NUM VARAL INFINITO E
OS ROSTOS CONFORME O SOL VAI BATENDO ELES VAO SE DESFAZENDO, LIQUEFAZENDO-SE EM ÁCIDOS CORROSIVOS, MENTIRAS, FERRUGENS, NEGRITUDES,
PETRÓLEO, MONEY, ARROGANCIAS ATÉ INDO PERFURANDO O CHAO DE ENCONTRO COM O CENTRO DA TERRA.
E AÍ VAO SURGINDO NOVOS ROSTOS COM A BELEZA DE UMA COR NATURAL, SEM ARTIFÍCIOS DO DEVER SER NEM DO QUERER SE MOSTRAR
PARA QUEM?
NAO FIZ O FILME MAS FAREI
HELOISA

KLINICA DO OITAVO ANDAR

Em 2010 demos abertura a um diálogo entre artistas, filósofos e clínicos. Hoje é um espaço de produção de pensamentos costurados com a vida e suas experiências. São contos, casos, coisas vividas que pedem expressão há muito tempo e já não podem ser silenciadas. Pedem passagem. E eu vou contar estes contos. 
Heloisa Antônia Franco. Contadora de histórias. 

MINEIRICE EM SAO PAULO

Mineirice em Säo Paulo.

Fui em um banco para resolver a vida cotidiana e lá chegando começo a conversar com uma Senhora bancária, com cheiro de armário guardado no tempo, sem nenhum brilho no olhar e um ar de burocrata do dinheiro, mantenedora da mais valia e dos lucros muito bem guardados e  mal repartidos a quem de direito, ou seja, aos seres de nossa sociedade, nós mesmos. Sim... porque 0,64 % que pagam aos seres como juros mensais com o dinheiro nosso emprestado, se transformam em 14 % mensais quando emprestados pelo mesmo banco para os mesmos seres de nossa sociedade, nós mesmos. Valor, o qual, o mesmo banco cobra dos mesmos seres caso necessitem para terem uma vida digna, já que não têm condições próprias de bancarem saúde privada. A saúde pública demora a chegar até depois da morte, e com esta atitude há economia de gastos governamentais e  investimentos altos na construção de empresas privadas para que os seres possam envelhecer e adoecer com dignidade e respeito. Os seres que conseguem pagar privadamente a saúde por duas vezes, já que pagamos saúde e educação para todos, oficialmente. 

Estes mesmos seres que se matam de trabalhar e muitas vezes não têm o que comer, ou conseguem com o fruto de seus trabalhos possuírem uma casa própria que custa x e é vendida por 3x,conseguir uma escola pública digna para os filhos e faculdade que virou a indústria de profissionais, 100 alunos por sala de aula e o círculo vicioso retorna. 
Então, muitos destes seres morrem antes da consulta pública de saúde e muitos morrem também , depois de 60 anos de trabalho duro, sem a casa própria tao sonhada e desejada. 
Entäo, a mesma senhora pálida e burocrata me pergunta depois de longa conversa a perceber minha mineirice : Como faz um mineiro prá viver em Säo Paulo? Como consegue? Num tom de arrogância e desdém como se aquilo fosse da ordem de algo inaceitável e inconcebível. Säo Paulo, o império celeste esplendoroso e inalcançável para um mineiro  e Minas a ralé da ralé da ralé , a senzala estropiada da grande metrópole. Ou melhor , um estado sem passado, sem cultura própria, nos confins de um mundo desabitado e débil mental. Bom, vocês poderiam dizer, mas que exagero?, E mais, só falta essa agora, um mineiro em Säo Paulo desdenhando Säo Paulo, e ainda por cima paranóico!!! Este foi o tom que ouvi desde dentro, não foi o tom que eu gostaria que tivesse adentrado nos meus poros, nos meus ouvidos, na minha garganta. 
Assim poderia ter sido, ou melhor, eu preferiria ter escutado assim:  "Como um mineiro consegue deixar suas lindas montanhas com rios e cachoeiras, e os amigos sentados nas varandas para longos papos de final de tarde e boas caminhadas ao por do sol nos parques e praças, e depois longas conversas amigas banhadas a päo de queijo e um cafezinho feito com carinhos da vó, uns doces em calda de figo, pêssego, laranja, limäo.... Eu precisava  prestar esta homenagem a Minas de Milton Nascimento , Sebastiao Salgado, Guimarães Rosa, Oscar Niemeiyer , Paralamas do Sucesso, Carlos Drumond de Andrade, Juscelino Kubscheck , teatro Galpão, Mineirinho e tantos outros poetas , músicos, artistas, compositores, terapeutas...Que recebeu tantos exilados políticos da Argentina na época da ditadura , estado da música, da seresta, de Aleijadinho, de Ouro Preto, Mariana, Tiradentes e o festival de cinema.
Minha grande amiga de Goiás me disse: Somos os bobos de Goiás em Säo Paulo, nós e os maneirinhos bobos.
E então como resposta à senhora encadernada com cheiro de guardado de tanto esperar, sabe o quê???
Eu mostro a ela o retrato da pousada que adquiri com suas montanhas e rios e cachoeiras e o mar paulista, e digo: Vim para cá para encontrar o mar de Minas Gerais!!!
Heloisa Antônia Franco

MÁQUINA DEVIR-CRIANÇA


Era uma máquina de escrever Olivetti, da década de 20, que ganhei de um grande amigo, dono de uma velha indústria que sabia que eu amava memórias falantes de passados remotos. Ganhei de presente há exatos 33 anos quando me formei em Psicologia. Uma herança de gerações  que ganhei para que continuasse as novas memórias que viriam sob o céu que nos protege. Ficava sempre sobre a minha mesa do consultório. Dentro dela um rolo de fax, também muitos rolos de herança para que fossem escritos nas afecções de nossas vidas diárias, infinitos acontecimentos, onde cada um ia deixando uma carta para que pudessem se comunicar com outros seres do tempo. E assim deixavam como testemunha as escritas de uma dor, de um sofrimento, de um pedido de serem escutados.
Parafraseando Fernando Pessoa, temos que transformar as cartas rir´iculas em cartas de amor. E eu pensava: As crianças estão transformando as palavras ridículas que ouviam em palavras de amor endereçadas à outras crianças que iriam entender exatamente ao ridículo que elas estavam se referindo. Ao desejo do desejo dos pais, que elas se tornassem aquilo.
As crianças deixavam as doces ou amargas lembranças e quando voltavam ao consultório corriam para verem se havia uma resposta com este desconhecido interlocutor que também era conhecido nas semelhanças destas histórias infantis que as crianças vão escrevendo dentro de si e produzindo tantas teorias acerca do humano adulto, da natureza destruída. Como diz o índio no filme "O abraço da Serpente" mirando as atrocidades dos jesuítas na catequização dos índios na Amazônia Colombiana: Se isto é homem, eu sou cobra!!!  Dei o nome à máquina de Devir-Criança, pois em cada um de nós habita uma criança que não quer perder a existência, uma criança que clama por alegria, inocência e a crença num mundo melhor, justo, transparente, lúcido, alegre e amigo. Toda criança que nos habita mesmo que esteja adormecida deseja crer que o mundo é feito de amigos , irmãos, companheiros que não nos abandonarão, nunca. E que o mundo não é feito de interesses, bajulações, violências afetivas e abandonos. Deleuze, meu grande guia na vida, me mostrou que a clínica é escrita com K, porque é a Klínica da grande saúde, a Klínica Expandida a todos os povos, tribos, raças... E o Xamanismo me ensinou que somos o Corpo da Terra, somos todos um só na imanência da vida. Com Deleuze aprendi na Klínica que " Educar uma criança é reconciliá-la com a sua solidão".  E a máquina de escrever o tempo é um dispositivo terapêutico para que um devir-criança advenha nos territórios da solitude alegre.
Era um dia triste, muito triste quando olhei para aquela máquina de escrever Olivetti e pensei no longo tempo em que ela estava comigo, na composição de tantas histórias tristes e alegres cúmplices e, assim, chegou a minha vez de escrever. Era muita dor e eu necessitava de muitos rolos de fax, e, então retirei o rolo de fax e me pus a contar toda uma história de muitos amores, muitas dores, em busca daqueles momentos que ficam nas memórias de nossas sensações, grudadas e fixadas nas nossas entranhas formando invaginaçöes espaciais-semespaços-temporais-atemporais. Me pus a reconstruir cada momento daquela história de amor. Em que momento o amor acabou. teria acabado o amor no amor? Como diz Afonso Romano de Santana. Me pus a buscar enlouquecidamente este instante do acontecimento: o fim, a começar pelo namoro, os encontros, as experimentações, as músicas, e como o amor tinha nascido pedia uma aliança a ser selada e o desejo de dar continuidade através dos filhos que viriam. Eram 6. Três de um lado e três de outro formando 6. Era este o sonho e o  livro Fax-Máquina do Tempo foi-se fazendo por uma linda história cheia de tumultos, oposições, discussões, dúvidas de uma jovem que aos 14 anos de idade pensava que amava, e aos 18 anos havia passado no vestibular e queria também colocar uma mochila nas costas e sair para o mundo. Mas faltava a coragem da renúncia ao sonho da bela adormecida täo impregnada em nossos corações, em nosso feminino. A bela adormecida para a vida nômade-viajante-andarilha. Também havia uma criança órfã necessitada de um lar, uma criança com seus 18 anos que se sentia sem chão, sem amor ...Vislumbrou poder construir e viver uma beleza de lar e família. Optou e foi. E foi pregando as lembranças , as imagens e palavras ridículas transformadas em cartas de amor, como diz Fernando Pessoa. E o filme da vida foi-se fazendo com as imagens, dores , espaços limpos, fluidos, vacúolos de ausência, vazios para que fossem preenchidos, transbordamentos de sensações, imagens e  tensões; excessos de memórias e palavras sujas, turvas e obscuras, segredos muitos e muitas mentiras.  Neste dia eu precisava colocar na máquina todos os tempos para que o mundo pudesse me ouvir no eco de tanta dor que meu corpo uivava. Era o dia que descobri mais tarde que quando se perde um grande amor o que dói é a perda de uma cumplicidade que se foi entre duas pessoas, e que o que você diz , você o diz para as paredes...o muro branco... pois aquele que você amava já não está mais ali e não te comunicou... já não temos mais o que fazer... é um uivo de animal que berra em todos as partículas de seu corpo, nas entranhas das células, no sangue das veias que já não querem mais correr  e que não encontra limite nem parada, pois o outro não está mais. Se foi. Não te avisou. Não tem quem escute o grito...ele caminha para o abissal das trevas mais obscuras e profundas pois nem grito para o outro há!!! Que triste!!! E você fica naquele lugar da louca, de fato , a louca que vive num mundo que não mais existe, que é uma ficção, mas o outro não diz a você que é real, que realmente ele não mais existe. Em um segundo , o outro lhe diz : Amo outra pessoa há muitos anos. Näo habito esta cumplicidade há muito tempo... e aí tudo fica claro.... ele já não estava mais ali. Já tinha partido. E...como ninguém é de ninguém temos que amar o amor do outro. Amar esta coisa preciosa e täo rara hoje em dia, o amor, e entäo, se alguém te deixa por amor, é só agradecer. Agradecer as portas que se abrem para que você possa viver um grande novo amor, ou muitos amores, ou muitos amigos no amor ou o amor expandido num coração expandido que produz a grande festa da alegria junto àqueles que te amam. O universo no amor incondicional por todas as coisas preciosas que nos habitam dentro e fora. Nada tem importância quando o amor te invade e toma conta de seu ser e, assim saímos do devir-camelo, aquele que carrega nas costas todas as dores do mundo... e entramos num eterno devir-criança, dançando para a vida em sua plenitude de oferendas que ela te dá. Que assim seja. Oxalá.
Heloisa Antônia Franco . A que ama crianças