miércoles, 7 de diciembre de 2016

QUARAR OS ROSTOS

ESTA É A IDÉIA DE UM FILME QUE AINDA NAO FIZ MAS FAREI
SAO MUITOS ROSTOS QUE PRECISAM SER COLOCADOS NUM VARAL INFINITO E
OS ROSTOS CONFORME O SOL VAI BATENDO ELES VAO SE DESFAZENDO, LIQUEFAZENDO-SE EM ÁCIDOS CORROSIVOS, MENTIRAS, FERRUGENS, NEGRITUDES,
PETRÓLEO, MONEY, ARROGANCIAS ATÉ INDO PERFURANDO O CHAO DE ENCONTRO COM O CENTRO DA TERRA.
E AÍ VAO SURGINDO NOVOS ROSTOS COM A BELEZA DE UMA COR NATURAL, SEM ARTIFÍCIOS DO DEVER SER NEM DO QUERER SE MOSTRAR
PARA QUEM?
NAO FIZ O FILME MAS FAREI
HELOISA

KLINICA DO OITAVO ANDAR

Em 2010 demos abertura a um diálogo entre artistas, filósofos e clínicos. Hoje é um espaço de produção de pensamentos costurados com a vida e suas experiências. São contos, casos, coisas vividas que pedem expressão há muito tempo e já não podem ser silenciadas. Pedem passagem. E eu vou contar estes contos. 
Heloisa Antônia Franco. Contadora de histórias. 

MINEIRICE EM SAO PAULO

Mineirice em Säo Paulo.

Fui em um banco para resolver a vida cotidiana e lá chegando começo a conversar com uma Senhora bancária, com cheiro de armário guardado no tempo, sem nenhum brilho no olhar e um ar de burocrata do dinheiro, mantenedora da mais valia e dos lucros muito bem guardados e  mal repartidos a quem de direito, ou seja, aos seres de nossa sociedade, nós mesmos. Sim... porque 0,64 % que pagam aos seres como juros mensais com o dinheiro nosso emprestado, se transformam em 14 % mensais quando emprestados pelo mesmo banco para os mesmos seres de nossa sociedade, nós mesmos. Valor, o qual, o mesmo banco cobra dos mesmos seres caso necessitem para terem uma vida digna, já que não têm condições próprias de bancarem saúde privada. A saúde pública demora a chegar até depois da morte, e com esta atitude há economia de gastos governamentais e  investimentos altos na construção de empresas privadas para que os seres possam envelhecer e adoecer com dignidade e respeito. Os seres que conseguem pagar privadamente a saúde por duas vezes, já que pagamos saúde e educação para todos, oficialmente. 

Estes mesmos seres que se matam de trabalhar e muitas vezes não têm o que comer, ou conseguem com o fruto de seus trabalhos possuírem uma casa própria que custa x e é vendida por 3x,conseguir uma escola pública digna para os filhos e faculdade que virou a indústria de profissionais, 100 alunos por sala de aula e o círculo vicioso retorna. 
Então, muitos destes seres morrem antes da consulta pública de saúde e muitos morrem também , depois de 60 anos de trabalho duro, sem a casa própria tao sonhada e desejada. 
Entäo, a mesma senhora pálida e burocrata me pergunta depois de longa conversa a perceber minha mineirice : Como faz um mineiro prá viver em Säo Paulo? Como consegue? Num tom de arrogância e desdém como se aquilo fosse da ordem de algo inaceitável e inconcebível. Säo Paulo, o império celeste esplendoroso e inalcançável para um mineiro  e Minas a ralé da ralé da ralé , a senzala estropiada da grande metrópole. Ou melhor , um estado sem passado, sem cultura própria, nos confins de um mundo desabitado e débil mental. Bom, vocês poderiam dizer, mas que exagero?, E mais, só falta essa agora, um mineiro em Säo Paulo desdenhando Säo Paulo, e ainda por cima paranóico!!! Este foi o tom que ouvi desde dentro, não foi o tom que eu gostaria que tivesse adentrado nos meus poros, nos meus ouvidos, na minha garganta. 
Assim poderia ter sido, ou melhor, eu preferiria ter escutado assim:  "Como um mineiro consegue deixar suas lindas montanhas com rios e cachoeiras, e os amigos sentados nas varandas para longos papos de final de tarde e boas caminhadas ao por do sol nos parques e praças, e depois longas conversas amigas banhadas a päo de queijo e um cafezinho feito com carinhos da vó, uns doces em calda de figo, pêssego, laranja, limäo.... Eu precisava  prestar esta homenagem a Minas de Milton Nascimento , Sebastiao Salgado, Guimarães Rosa, Oscar Niemeiyer , Paralamas do Sucesso, Carlos Drumond de Andrade, Juscelino Kubscheck , teatro Galpão, Mineirinho e tantos outros poetas , músicos, artistas, compositores, terapeutas...Que recebeu tantos exilados políticos da Argentina na época da ditadura , estado da música, da seresta, de Aleijadinho, de Ouro Preto, Mariana, Tiradentes e o festival de cinema.
Minha grande amiga de Goiás me disse: Somos os bobos de Goiás em Säo Paulo, nós e os maneirinhos bobos.
E então como resposta à senhora encadernada com cheiro de guardado de tanto esperar, sabe o quê???
Eu mostro a ela o retrato da pousada que adquiri com suas montanhas e rios e cachoeiras e o mar paulista, e digo: Vim para cá para encontrar o mar de Minas Gerais!!!
Heloisa Antônia Franco

MÁQUINA DEVIR-CRIANÇA


Era uma máquina de escrever Olivetti, da década de 20, que ganhei de um grande amigo, dono de uma velha indústria que sabia que eu amava memórias falantes de passados remotos. Ganhei de presente há exatos 33 anos quando me formei em Psicologia. Uma herança de gerações  que ganhei para que continuasse as novas memórias que viriam sob o céu que nos protege. Ficava sempre sobre a minha mesa do consultório. Dentro dela um rolo de fax, também muitos rolos de herança para que fossem escritos nas afecções de nossas vidas diárias, infinitos acontecimentos, onde cada um ia deixando uma carta para que pudessem se comunicar com outros seres do tempo. E assim deixavam como testemunha as escritas de uma dor, de um sofrimento, de um pedido de serem escutados.
Parafraseando Fernando Pessoa, temos que transformar as cartas rir´iculas em cartas de amor. E eu pensava: As crianças estão transformando as palavras ridículas que ouviam em palavras de amor endereçadas à outras crianças que iriam entender exatamente ao ridículo que elas estavam se referindo. Ao desejo do desejo dos pais, que elas se tornassem aquilo.
As crianças deixavam as doces ou amargas lembranças e quando voltavam ao consultório corriam para verem se havia uma resposta com este desconhecido interlocutor que também era conhecido nas semelhanças destas histórias infantis que as crianças vão escrevendo dentro de si e produzindo tantas teorias acerca do humano adulto, da natureza destruída. Como diz o índio no filme "O abraço da Serpente" mirando as atrocidades dos jesuítas na catequização dos índios na Amazônia Colombiana: Se isto é homem, eu sou cobra!!!  Dei o nome à máquina de Devir-Criança, pois em cada um de nós habita uma criança que não quer perder a existência, uma criança que clama por alegria, inocência e a crença num mundo melhor, justo, transparente, lúcido, alegre e amigo. Toda criança que nos habita mesmo que esteja adormecida deseja crer que o mundo é feito de amigos , irmãos, companheiros que não nos abandonarão, nunca. E que o mundo não é feito de interesses, bajulações, violências afetivas e abandonos. Deleuze, meu grande guia na vida, me mostrou que a clínica é escrita com K, porque é a Klínica da grande saúde, a Klínica Expandida a todos os povos, tribos, raças... E o Xamanismo me ensinou que somos o Corpo da Terra, somos todos um só na imanência da vida. Com Deleuze aprendi na Klínica que " Educar uma criança é reconciliá-la com a sua solidão".  E a máquina de escrever o tempo é um dispositivo terapêutico para que um devir-criança advenha nos territórios da solitude alegre.
Era um dia triste, muito triste quando olhei para aquela máquina de escrever Olivetti e pensei no longo tempo em que ela estava comigo, na composição de tantas histórias tristes e alegres cúmplices e, assim, chegou a minha vez de escrever. Era muita dor e eu necessitava de muitos rolos de fax, e, então retirei o rolo de fax e me pus a contar toda uma história de muitos amores, muitas dores, em busca daqueles momentos que ficam nas memórias de nossas sensações, grudadas e fixadas nas nossas entranhas formando invaginaçöes espaciais-semespaços-temporais-atemporais. Me pus a reconstruir cada momento daquela história de amor. Em que momento o amor acabou. teria acabado o amor no amor? Como diz Afonso Romano de Santana. Me pus a buscar enlouquecidamente este instante do acontecimento: o fim, a começar pelo namoro, os encontros, as experimentações, as músicas, e como o amor tinha nascido pedia uma aliança a ser selada e o desejo de dar continuidade através dos filhos que viriam. Eram 6. Três de um lado e três de outro formando 6. Era este o sonho e o  livro Fax-Máquina do Tempo foi-se fazendo por uma linda história cheia de tumultos, oposições, discussões, dúvidas de uma jovem que aos 14 anos de idade pensava que amava, e aos 18 anos havia passado no vestibular e queria também colocar uma mochila nas costas e sair para o mundo. Mas faltava a coragem da renúncia ao sonho da bela adormecida täo impregnada em nossos corações, em nosso feminino. A bela adormecida para a vida nômade-viajante-andarilha. Também havia uma criança órfã necessitada de um lar, uma criança com seus 18 anos que se sentia sem chão, sem amor ...Vislumbrou poder construir e viver uma beleza de lar e família. Optou e foi. E foi pregando as lembranças , as imagens e palavras ridículas transformadas em cartas de amor, como diz Fernando Pessoa. E o filme da vida foi-se fazendo com as imagens, dores , espaços limpos, fluidos, vacúolos de ausência, vazios para que fossem preenchidos, transbordamentos de sensações, imagens e  tensões; excessos de memórias e palavras sujas, turvas e obscuras, segredos muitos e muitas mentiras.  Neste dia eu precisava colocar na máquina todos os tempos para que o mundo pudesse me ouvir no eco de tanta dor que meu corpo uivava. Era o dia que descobri mais tarde que quando se perde um grande amor o que dói é a perda de uma cumplicidade que se foi entre duas pessoas, e que o que você diz , você o diz para as paredes...o muro branco... pois aquele que você amava já não está mais ali e não te comunicou... já não temos mais o que fazer... é um uivo de animal que berra em todos as partículas de seu corpo, nas entranhas das células, no sangue das veias que já não querem mais correr  e que não encontra limite nem parada, pois o outro não está mais. Se foi. Não te avisou. Não tem quem escute o grito...ele caminha para o abissal das trevas mais obscuras e profundas pois nem grito para o outro há!!! Que triste!!! E você fica naquele lugar da louca, de fato , a louca que vive num mundo que não mais existe, que é uma ficção, mas o outro não diz a você que é real, que realmente ele não mais existe. Em um segundo , o outro lhe diz : Amo outra pessoa há muitos anos. Näo habito esta cumplicidade há muito tempo... e aí tudo fica claro.... ele já não estava mais ali. Já tinha partido. E...como ninguém é de ninguém temos que amar o amor do outro. Amar esta coisa preciosa e täo rara hoje em dia, o amor, e entäo, se alguém te deixa por amor, é só agradecer. Agradecer as portas que se abrem para que você possa viver um grande novo amor, ou muitos amores, ou muitos amigos no amor ou o amor expandido num coração expandido que produz a grande festa da alegria junto àqueles que te amam. O universo no amor incondicional por todas as coisas preciosas que nos habitam dentro e fora. Nada tem importância quando o amor te invade e toma conta de seu ser e, assim saímos do devir-camelo, aquele que carrega nas costas todas as dores do mundo... e entramos num eterno devir-criança, dançando para a vida em sua plenitude de oferendas que ela te dá. Que assim seja. Oxalá.
Heloisa Antônia Franco . A que ama crianças




domingo, 9 de octubre de 2016

Sobre a pretensa natureza linguistica do inconsciente





FREUD
NIETZSCHE
JUNG





















SOBRE A PRETENSA NATUREZA LINGUÍSTICA DO INCONSCIENTE

     

Na primeira tópica. O inconsciente era assimilado aquilo que no conflito era repudiado. Isto é, o polo pulsional recalcado. O que implicava reconhecer inconsciente e recalque, por um lado, e de outro, a instância recalcadora, no sistema pré-consciente-consciente. Esse é um dos pontos em que Freud insistiu em O EGO E O ID para justificar a introdução da Segunda tópica. Por volta de 1920 Freud irá assumir que a defesa é também inconsciente:
Entretanto, visto não poder haver dúvida de que essa resistência emana do seu ego e a este pertence, encontramo-nos numa situação imprevista. Deparamo-nos com algo no próprio ego que é também inconsciente, que se comporta exatamente como recalcado – isto é, que produz efeitos poderosos sem ele próprio ser  consciente e que exige um trabalho especial antes de poder tornar se consciente. Do ponto de vista da prática analítica, a  consequência dessa descoberta é que iremos parar em infindáveis obscuridades e dificuldades se nos ativermos  a nossas formas habituais de expressão e tentarmos, por exemplo, derivar as neuroses de um conflito entre o consciente e o inconsciente[1].
Nas novas conferências . . ., o argumento aparece da seguinte forma:
Há muito deveríamos ter feito a pergunta: de que parte de sua  mente (do paciente) surge uma resistência inconsciente de tal ordem? O principiante em psicanálise está pronto a responder, de  imediato: é naturalmente a resistência do inconsciente. Resposta ambígua e inútil! Se significa que a resistência surge do recalcado, devemos acrescentar: certamente não! . . . A resistência só pode ser manifestação do ego que originalmente forçou o recalque e agora deseja mantê-lo. Ademais, essa é a opinião que sempre tivemos. Se, pois, na análise nos deparamos com o caso de a resistência não deve ser consciente para o paciente, isto significa que , em situações muito importantes , o superego e o ego podem operar inconscientemente ou que – e isto seria ainda mais importante – parte de ambos, do ego e do  superego, são inconscientes. Nos dois casos temos de contar com a desagradável descoberta de que, por um lado, o superego e o consciente e,  por outro lado, o recalcado e o inconsciente não são de modo algum coincidentes[2].
Freud nos diz que essa questão de se saber a cerca do inconsciente não se confunde com o “sistema” inconsciente da forma como é descrito na primeira tópica, como o lugar, por excelência, do recalcado. Há muitos modos de funcionamento do aparelho psíquico, como se defender, escamotear, recalcar, isolar, mecanismo provenientes do ego, e  sujeito não tem consciência desses por serem inconscientes. Portanto, o ego também tem partes inconscientes que não se confundem com o sistema inconsciente, tal como é conceituado na primeira tópica.
         No artigo de 1915, O INCONSCIENTE, o qual representa o ponto culminante da primeira tópica do aparelho psíquico, a teoria topográfica, Freud tenta forjar uma representação coerente dos conteúdos e do modo de funcionamento do inconsciente. Neste texto,  Freud tende a identificar componentes básicos do inconsciente com as representações, tomando esse termo na sua acepção mais larga possível.  O inconsciente é habitado por traços mnésicos, fragmento desses traços, imagens, ou a combinação delas tendendo a formar uma “cena”, o fantasma inconsciente. Freud viu-se obrigado a pensar no estatuto das pulsões, pois até 1915 ele fora um pouco vago com relação a esse tema. A pulsão é de origem incontestavelmente orgânica, e neste texto Freud coloca o problema da inscrição psíquica das moções pulsionais. A pulsão enquanto tal é e nos será sempre desconhecida. O que aparece no plano psíquico é um seu representante, um seu delegado. O texto central de Freud no início da sessão III do artigo é o seguinte:
De fato, penso que  a oposição entre consciente e inconsciente não se aplica à pulsão. Uma pulsão não pode nunca tornar-se objeto da consciência, só o pode através de representação que a represente. Além disso, no inconsciente também, a pulsão pode ser representada senão pela representação .Se a pulsão não estivesse ligada a uma representação ou  não aparecesse sob a forma de afeto, nada poderíamos saber. Mas, se falamos, no entanto, de uma moção pulsional recalcada, trata-se de uma negligência de expressão sem consequência de expressão sem consequência. Não podemos entender outra coisa senão uma noção pulsional da qual o representante-representação é inconsciente[3] . . .”
         E a respeito dos sentimentos, emoções, seriam eles inconscientes? Freud usa a expressão como “sentimento inconsciente de culpa”, mas Freud[4] avisa é da essenciaa do sentimento ser percebido, ser conhecido pela consciência”.


Nesse caso, é claro que “para os sentimentos, as sensações, os afetos, a possibilidade de ser inconsciente desaparece completamente.. Freud sustenta a tese fundamental da independência entre o afeto e representação. O que é recalcado e portanto passa a  existir no regime do inconsciente é a  representação á qual esse fato está originalmente ligado. Processado o recalque, o afeto se encontra livre e frequentemente se desestrutura em angústia.
Com seu representante próprio (do afeto) tendo sido recalcado, ela (  a moção de afeto) foi coagida a se ligar a uma outra representação e é agora tida pela consciência como a manifestação desta última. Quando restabelecemos a conexão exata, chamamos de inconsciente a moção de afeto originária, se bem que seu afeto não foi nunca inconsciente e só a representação sucumbiu ao recalque.” [5]
Esta mesma representação será retomada por Freud no cap II de O EGO E O ID.
         Vemos, portanto, que o inconsciente é composto por representações que subdividiram em 2 grupos: representações pulsionais e representações daquilo que é enviado para o  inconsciente através do processo do recalque.
Reconhecemos que o inconsciente não coincide com o recalcado; é ainda verdade que tudo o que é recalcado é inconsciente, mas nem tudo o que é inconsciente é recalcado . . . Quando nós vemos assim confrontados pela necessidade de postular um terceiro inconsciente, que não é recalcado, temos que admitir que a característica de ser inconsciente começa a perder significação para nós.”[6]
         Freud traz também a hipótese de que o inconsciente teria como componentes certas estruturas gerais e herdadas em TOTEM E TABU. Essa idéia de que existem certos mecanismos, certos esquemas de estruturação do psíquico pré-formados e hereditários conduzem, evidentemente, a uma concepção de inconsciente que ultrapassa em larga escala um inconsciente formado sobretudo de representações. No capítulo VI de TOTEM E TABU. Freud irá tratar do que seria o Núcleo do inconsciente:
Pode-se comparar o conteúdo do inconsciente a isso que seia, no domínio psíquico, uma população aborígene. Se existem no homem formações psíquicas herdadas, alguma coisa de análogo ao instinto dos animais, elas constituem o núcleo do inconsciente. Depois junta se a elas o  que foi eliminado no curso do desenvolvimento da criança como  inutilizável e que não precisa ser de uma outra natureza que aquilo que é herdado. Não é senão no momento da puberdade que se instala, geralmente, uma separação nítida e definitiva do conteúdo dos dois sistemas.”[7]
Vemos neste texto a palavra INSTINKT, ou seja, uma faceta de caráter nitidamente biológica e por outro lado, a identificação do  inconsciente com a teia das representações recalcadas, abordaremos a questão biológica do inconsciente mais adiante. No artigo, A Dissolução do Complexo de Édipo [8] também aparece a idéia de que a ontogênese repete a  filogênese  no campo psíquico, é uma constante em Freud, que, neste ponto, é um bom herdeiro do século XX, parafraseando Monzani.
         Segundo Monzani[9] os principais problemas da teoria, como: a dinâmica do conflito neurótico e a diferença entre ser inconsciente e pertencer ao sistema inconsciente: os modos de funcionamento do inconsciente: a remodelação da noção de ego e a composição do inconsciente, os quais apontam claramente a insuficiência da primeira tópica e direcionam já para a Segunda tópica já são conhecidas de Freud há longos tempo. Monzani diz que, até 1915,  aproximadamente, o discurso freudiano se vê frente a duas coisas que não parecem muito conciliáveis entre si: 1) a existência de uma topologia psíquica, que parece acarretar necessariamente a idéia de sistema (pré-consciente, consciente, inconsciente) em função da questão do estatuto da representação e 2) as contradições pelas quais a topologia  anímica faz com que essa concepção envedece . . . Duas hipóteses de solução quanto ao estatuto da representação tinham se apresentado a Freud: aquele que conhecemos como a topologia e outra de ordem econômica. É na sessão VII do artigo sobre O inconsciente que Freud irá propor uma terceira solução, no qual foi o texto sobre a  afasia que foi o inspirador dessa nova solução [ o trecho principal contido no estudo sobre a afasia, e que é pertinente para a distinção operada por Freud nesta sessão VII, está reproduzido no apêndice do artigo sobre o inconsciente] onde Freud isola o conceito de narcisismo e a abordagem das psicoses. A análise da esquizofrenia leva Freud  a postular uma distinção entre “representação de coisa e representação de palavras”. Assim demonstra Freud: “Vemos agora que aquela que denominamos a representação de objetos consciente pode se cindir em representação de palavras e  representação de palavras”. Assim demonstra Freud: “Vemos agora que aquela que denominamos a representação de objeto consciente pode se cindir em representação de palavra e representação de coisas. Esta última consiste no investimento senão de imagens mnésicas diretas de coisas, ao menos de traços mnésicos mais distantes e que derivam delas. Agora parece que  sabemos de imediato em que uma representação consciente se distingue de uma representação inconsciente: a representação consciente compreende  a representação de coisa mais a representação de palavra que lhe pertence; a representação inconsciente é somente representação de coisa.” (11)
         “Como podemos ver, estar ligado a representações de palavra ainda não é a mesma coisa que tornar-se consciente, mas limita-se a possibilitar que isto aconteça; é portanto algo característico do sistema pré-consciente, e somente desse sistema.” (12)
         No cap. II de O EGO E O ID, Freud assim coloca: “ Em outro lugar (Freud refere-se ao artigo sobre o inconsciente), já sugeri que a diferença real entre uma representação (pensamento) do inconsciente ou do pré-consciente consiste nisto: que a  primeira é efetuada em algum material que permanece desconhecido, enquanto que a última ( a pré-consciente) é além disso, colocada em vinculação com as representações verbais. Esta é a  primeira tentativa de indicar marcas distintas entre os dois sistemas, o pré-consciente e o inconsciente, além de sua relação com a consciente.”(13)
         Freud resolve portanto, o problema de estatuto da representação, sem abandonar a hipótese topográfica e a econômica. “Uma representação é inconsciente porque está ou foi deslocada não para um determinado lugar; é o resultado de  um trabalho que sobre ela foi efetuado e que traz como consequência que ela passe a existir sob uma outra forma . . . Da hipótese topográfica ele retém a idéia de diferentes localizações psíquicas e da hipótese econômica de que é necessário um trabalho (o que implica considerações energéticas e econômicas), seja para realizar a clivagem, seja para recompô-la numa síntese superior.” (14)
         Monzani acredita que esse artigo metapsicológico é, ao mesmo tempo, uma encruzilhada e uma ponte, por suas contradições e por possibilitar soluções para essas contradições. Freud faz questão de manter a hipótese topográfica onde está presente a idéia de um aparelho psíquico composto basicamente pelo sistema inconsciente – pré-consciente – consciente até 1923, quando escreve O EGO e O ID. Segundo Lacan (15), no seminário, a montagem da Segunda tópica começou com a reformulação da  noção do ego: “O id, vocês sabem, aparece no pensamento freudiano depois de 1920 e, na realidade, nessa Segunda tópica, ele aparece depois das outras instâncias: a Segunda tópica é primeiramente uma modificação do sistema metapsicológico em função das outras instâncias, quer dizer , do ego, do superego, do ideal do ego, que encontram sua origem, mais remotamente, no pensamento freudiano, bem antes de 1920.” (15).
         Para Laplanche, a introdução da noção de id traz 4 possíveis implicações:
1)   uma referencia mais direta ao polo pulsional e através deste, ao nível biológico;
2)   uma opção quanto ao problema das origens, tomando uma orientação marcadamente geneticista em relação aos problemas psicanalíticos;
3)   Acentuar fortemente o fator impessoal daquilo que nos  move;
4)   Uma colocação de ordem na questão do conflito quando emergem as noções de ego, superego e ideal do ego, que são, em grande parte, inconscientes. (16)

No que diz refere a esta orientação biologizante, Freud nos diz em O EGO e O ID: “ os presentes estudos constituem um  novo desenvolvimento de algumas sequências de pensamento que expus em Além do princípio do prazer . . . Nas páginas que se seguem, esses pensamentos são vinculados a diversos fatos da observação analítica e faz-se uma tentativa de chegar a novas  conclusões a partir dessa conjunção. No presente trabalho, contudo, não existe novos empréstimo tomados à biologia e, devido a isso, ele se encontra mais próximos da psicanálise que Além do princípio do prazer. Tem mais a natureza de uma síntese do que ele de uma especulação . . . (17). Este texto mostra que Além do princípio do prazer constitui o pano de fundo através do qual deva ser entendido. E sabemos que este tem uma acentuação nitidamente biologizante. Segundo Monzanio (18), se trata de biologia porque Freud estava fazendo metáforas, não era outra coisa que estava sendo dita. Quando Freud falava sobre dualismo pulsional em termos de pulsão de auto-conservação / pulsões sexuais, a referência ao biológico era longíqua, tratava-se de inscrição no inconsciente. Parece que no texto Freud está formulando hipóteses biológicas, necessárias para  a definição das noções de pulsão de vida e de morte. Ou seja, assumir as hipóteses contidas em Além do princípio do prazer significou, de fato, aos olhos de Freud, assumir de forma ostensiva a hipótese emitida no artigo sobre o inconsciente de que há um caroço nele muito ligado ao biológico. E mais, segundo Monzani, essa orientação biologizante que possibilitou a Freud constituir o conceito de id, que aparece para dar conta desse substrato biológico, seria uma  espécie de inconsciente primitivo, originário a partir do qual certos elementos tentariam irromper e se dirigir no  sentido da ação motora, secundariamente, recalcados. Como Freud o descreve, um caldeirão fervilhante, aberto e seu extremo às influências somáticas, que as recebe e as dirige no sentido da descarga: “catexias pulsionais que procuram a descarga, isso em nossa opinião, é tudo o que existe no id.” (19).
Para André Green, é justamente esse dualismo pulsional que irá engendrar a  Segunda tópica. Eros/Pulsão de Morte. Para ele, o inconsciente esteve ligado até então e uma estrutura positivamente interpretável: “Tende-se precisamente a reconhecer no seio dessas instâncias suas forças cegas, opacas, inacessível à exploração, mais selvagens ainda que as que foram descobertas ao nível do inconsciente, mais rebeldes ainda à domesticação, submetidas a influências obscuras . . .(20).Quer dizer, enquanto o inconsciente e´ o lugar da plena positividade e , portanto, não confere nenhum estatuto de cidadania, nos seus foros, à pulsão de morte, o id, “o caldeirão fervilhante”, abre exatamente essa possibilidade, na medida em que, aqui, o negativo tem sua inscrição assumida: “A diferença maior entre o conceito de inconsciente e o conceito de id reside no fato de que ao nível do primeiro as pulsões de destruição não têm nenhum lugar; ao nível do segundo, não só seu lugar está determinado como o seu papel considerado dominante.” (21)
Para Sulloway no seu livro “Freud, biológico da mente”. Diz: “ tal como ela foi exposta em O ego e o id,  a teoria freudiana estrutural tripartida do psiquismo trouxe muito mais clareza á teoria do dualismo pulsional . . . Nesse esquema tripartido, o id, ou sede do inconsciente, é o foco original das pulsões de vida (Eros) e de morte. Nos limites do id, a pulsão de morte visa a reabsorção da tensão para chegar finalmente a um estado de Nirvana. Eros, ao contrário, não acessa de introduzir novas tensões no id . . .” (22).
Segundo Monzanti nesse texto O Ego e o Id, onde Freud funda a Segunda tópica, o “ser inconsciente” deixa de ter uma acepção sistemática e passa apenas a designar uma qualidade psíquica, e não há o menor esboço de tentativa por parte de Freud, de estabelecer uma ligação mais sólida entre as duas tópicas, na tentativa de entender o que seja “sistema inconsciente”.
Em novas conferências, Freud irá delinear melhor a conceituação do id: “É a parte obscura e inacessível de nossa personalidade.” (23).O que sabemos dele advém do estudo “da elaboração onírica e da formação dos sintomas neuróticos”. Ele é um “caos”, um “caldeirão efervescente de energia”. Está, num de seus extremos, “aberto às influências somáticas e contém em si noções pulsionais que nele encontram expresso psíquica”. Está povoado de energias que lhe chegam das pulsões. É desorganizado e nada nele nos faz pensar em algo como “uma vontade coletiva”.  Sua finalidade é uma só: “satisfazer as moções pulsionais” que estão submetidas irrestritamente ao  princípio do prazer. As leis lógicas não funcionam no seu domínio nem nele está presente a idéia de tempo: impulsos plenos de desejos, quem jamais passaram até do id, e também impressões que foram mergulhadas nele pelo recalcamento, são virtualmente imortais. Não conhece julgamento de valores, está além do bem e do mal, e nele predomina sobretudo o fator econômico, quantitativo: “catexias pulsionais que procuram descarga –isto, em nossa opinião, é tudo que existe no id.” (24).
Podemos entender quem, no artigo metapsicológico o inconsciente era descrito por Freud, como sendo essencialmente  o lugar das representações (representação de coisa, e cabe ao pré-consciente – e consciente a junção de representação de coisas mais representação de palavras). A caracterização do id, por seu lado, acentua flagrantemente esse aspecto energético, quantitativo econômico do id. Nele também existem moções afetivas. “Descrevemos o id como estando aberto no seu extremo, a influências somáticas e como contendo dentro de si necessidades pulsionais que, nele encontram expresso psíquica, não sabemos dizer contudo em que substrato.” (25).
 Freud irá tentar unir as duas tópicas, construir uma relação entre os dois campos, por um lado, inconsciente – pré-inconsciente – inconsciente, e , por outro, as três instâncias, ego, id, superego. Parece que Freud conclui que não há uma relação estrita entre esses dois campos, assim Freud coloca: “ Previamente, não obstante realizemos uma breve interpolação. Penso que os senhores se sentem insatisfeitos porque as três qualidades da consciência e as três regiões do aparelho mental não se agrupam em três pares harmônicos, e os senhores podem considerar esse fato em certo sentido, obscurecedor de nossos achados. Não penso, todavia, que devemos lamentá –lo e sim dizer a nós mesmos que não tínhamos o direito de esperar nenhuma disposição homogênea nessas coisas. Permitam-me mostrar-lhes uma analogia; é verdade que as analogias nada decidem, mas podem fazer a pessoa sentir-se mais à vontade. Estou imaginando uma região com uma paisagem de configuração variada -  montanhas, planícies e cadeias de lagos – e com uma população mista: é habitada por alemães, magiares e eslovacos, que se dedicam a atividades diferentes. Ora, poderiam as coisas estar  repartidas de tal modo que os alemães, criadores de gado, habitam a região montanhosa, os magiares, que plantam cereais e videiras, moram nas planícies, e os eslovacos, que capturam peixes e tecem o junco, vivem junto aos lagos. Se a partilha pudesse ser tão simples e definida, um Woodrow Wilson ficaria satisfeito com isso; mas também seria conveniente tal arranjo para uma conferência numa sala de geografia. Entretanto, seria provável que os senhores encontrassem menos homogeneidade  e mais mistura se viajassem pela região. Alemães, magiares e eslovacos, viviam disseminados por toda parte: na região montanhosa também há terras cultiváveis, e cria-se gado também nas planícies. Algumas coisas, naturalmente , são conforme os senhores esperavam, pois não se pode capturar peixes nas montanhas e os  vinhedos não crescem na água. Realmente,  o quadro da região, que os  senhores se afiguravam, pode, na sua totalidade, ajustar-se aos fatos; os senhores, no entanto, terão de conformar-se com desvio nos detalhes” (26).
Há uma vertente empirista me Freud, em que o biológico tem um papel importante, e é justamente na  busca de uma compreensão do que seja este texto freudiano, que Lacan irá retomá-lo. Freud está em busca de um referente último que dê conta de resolver o sintoma, desfazê-lo. Busca de um nome que remeta a uma coisa. Com o intuito de dar conta do inconsciente freudiano. Lacan buscará recursos no estruturalismo e linguística, via Levi-Strauss e Saussure.
Uma inflexão importante da abordagem saussuriana é o fechamento da língua sobre si mesma. O signo linguístico ume não uma coisa ao seu nome, mas um conceito a uma imagem acústica num vínculo arbitrário que remete a realidade, o referente, para o exterior do campo do estudo a fim de definir a perspectiva, por definição restrita, do linguista. Portanto, o signo saussuriano só envolve, a relação entre significado (o conceito) e significante (imagem acústica), com exclusão do referente. “ A língua é um sistema que só conhece a própria ordem”  (27) – a função referencial é reprimida, a unidade linguística remete sempre para todas as outras numa combinatória puramente endógena. A sua linguística está restrita ao estudo do código, separada de suas condições de aparecimento e de sua significação. É aí que se instaura o enorme programa estruturalista, reagrupando em torno de um mesmo paradigma todas as  ciências do signo. A ciência – piloto  com a força de um método que pode prevalecer-se de resultados.
A principal inflexão será a preponderância atribuída à sincronia, isto é, a  insignificância da historicidade com a metáfora do jogo de xadrez. A inteligência da partida resulta da visão do lugar e das combinações possíveis das peças colocadas no tabuleiro do jogo: É totalmente indiferente que se tenha chegado a ela por um caminho ou outro.” (28). Lacan participa inteiramente do  paradigma estruturalista, esvaziando ainda mais radicalmente o referente, relegando para um lugar secundário o significado que experimenta a cadeia significante num movimento em que ele introduz “a noção de deslizamento incessante do significado sob o significante.” (29). O sujeito encontra-se descentralizado, efeito do  significante que remete ele próprio para um outro significante, é o produto da linguagem que fala nele. O inconsciente torna-se, portanto, efeito de linguagem, de suas regras, de seu código. Este sujeito é de certa forma uma ficção que só tem sentido, ou existência em virtude de sua dimensão simbólica. “É o deslocamento do significante que determina os sujeitos em seus atos, em seu destino, em sua recusa, em suas cegueiras.” (30). Para  Lacan, os símbolos são mais reais do que o que eles simbolizam, o significante precede e determina o significado.
O desejo do sujeito já nada tem de orgânico em Lacan, está desligado de toda realidade fisiológica da mesma maneira que o signo linguístico encontra-se cortado de todo o referente. O signficante irá ocupar o lugar de sujeito. Cuja existência se dá como causa ausente para seus efeitos, a saber, a cadeia significante pela qual ele se torna inteligível. O sujeito não é reduzido a nada, mas aos status de não-ser;  é o fundamento não-significante da significância dos significantes, ou seja, a sua própria condição de existência. O trabalho do analista baseia-se, pois, na restituição, da lógica interna a essa cadeia significante, da qual nenhum elemento é capaz em si  mesmo de representar um tempo de significação. O  significante é então um sujeito para um sujeito para um outro significante e só cumpre, portanto, a sua função ao retirar-se constantemente para dar lugar a um novo significante.
A retomada do  signo saussuriano por Lacan, forçando-o no sentido de esvaziamento do significado ou, em todo caso, de sua atenuação em  proveito do significante significa que: “Tal como a linguagem, o social, é uma realidade autônoma ( a mesma, aliás); os símbolos são mais reais do que o que eles simbolizam, o significante precede e determina o significado.” (31). É aí que se consolida o projeto globalizante para o conjunto das ciências do homem, convocadas com vistas à uma realização de um vasto programa semiológico. Para além do horizonte interdisciplinar que aí é definido por Lévis-Strauss, este enuncia uma tese canônica do estruturalismo ao afirmar que o código precede a mensagem, que é independente dela, e que o sujeito está submetido á lei do significante. É nesse nível que se encontra o núcleo estrutural da abordagem: “ A definição de um código é ser traduzível num outro código: a essa propriedade que o define dá-se o nome de estrutura.” (32).
Para concluir, em Freud, o inconsciente não tem uma natureza linguística, mas sim, é de natureza econômica, libidinal, dinâmica e topográfica. As representações de palavras não fazem parte do inconsciente, o que é justamente a  constituição do inconsciente para Lacan.
NOTAS

1)   FREUD – XIX, 29 30, XIII, 244
2)   FREUD – XXII, 88 – 9, XV, 75
3)   FREUD – XIV, 191 ss; X, 246 ss
4)   FREUD – XIV, 203 X – 275 – 6 TRAB. DE LAPIANCHE E PONTALIS EM “METAPSYCHOLOGIE”, PARIS, GALLIMARD, IDEÉS, 1978, p. ss
5)   FREUD – XIV, 203, X – 276
6)   FREUD – XIV, 203, X – 276
7)   FREUD – XIV, 203 – 4; X – 276
8)   FREUD – XIX, 30; XIII, 244 – 5
9)   FREUD – XIV, 233; X – 294
10)        FREUD – XIX – 217 – 8; 395 – 6
11)        FREUD – XIV, 299 – 30; X – 300
12)        FREUD – XIV, 231; X – 301
13)        FREUD – XIX, 33 – XIII, 247
14)        MONZANI, p. 262
15)        LAGAN, SEMINÁRIO I, p. 21
16)        LAPIANCHE, PROBLEMÁTIQUES IV, p. 81
17)        FREUD – XIX, 23; XIII, 237
18)        MONZANI, pg. 266
[1] FREUD, 1923. v.19,p.29-30.

[2] FREUD, 1932-1933. v.22, p.88-89.
[3] FREUD, 1915. v .14, p. 203.
[4] FREUD, 1915. v.14, p.203.
[5] FREUD, 1915. v.14, p.203-204.
[6] FREUD, 1923. v. 19, p.30.
[7] FREUD, 1912-1913. v.13, p. 244-245.
[8] FREUD, 1923. v.19, p. 217-218, p. 395-396.
[9] MONZANI,MOVIMENTO DE UM PENSAMENTO

Pensando a vida

Pensando a vida

Venho há muito tempo com uma inquietude estranha ao pensar a vida de tantas crianças às quais tenho acompanhado em seus momentos de desorganização, tristeza, fugas, dores físicas, psíquicas, afetivas, num tormento de silêncios, fragilidades, gritos silenciados de dor. Crianças  com dificuldades de compreender o seu lugar diante da estrutura desejante dos pais, que não sabem como satisfazer enormes expectativas projetadas sobre suas pessoas, expectativas econômicas, ao terem que dar conta de preservar e continuar a acumulação de riquezas e de um status quo; expectativas idealizantes narcisistas e afetivas, no sentido de terem que realizar antigos projetos não realizados dos pais, projetos  muitas vezes impossíveis de serem realizados. Crianças que muitas vezes ocupam o lugar desse sintoma familiar e desenvolvem um sentimento de fracasso em relação a si mesmas por não conseguirem realizar o desejo de um outro. Quanto sofrimento encontrado nessas andanças da vida ... Vida ! É preciso repensá-la, nem que para isso eu tenha que usar o meu corpo e  a minha  alma como lenha dessa enorme fogueira, como nos diz Fernando Pessoa.
Qual seria o lugar desse pai na estrutura desejante da criança e de nós adultos?  Será que esse pai enquanto paternidade já foi construído?????  Ou será que o pai que encontramos é o proprietário dos bens, da mulher, dos “filhos da mulher” e da terra.
   Por que pensar na falta do pai enquanto falta concreta? Porque a maioria das crianças que chegam até mim  com angústia, com distúrbios de comportamento ,dificuldades de aprendizagem ,de sono, transtornos de ansiedade, obsessivos,fóbicos,  em sua maioria não têm pai,  ou são filhos de pais separados, ou não têm um vínculo  afetivo com o mesmo. A questão que se coloca é o que se passa com essas crianças, em seu mundo afetivo, pulsional desejante?
   Freud irá tentar responder à questão da origem do inconsciente, dos fantasmas individuais e coletivos, nos fornecendo uma explicação mítica  através da criação do mito da horda primeva , mito fundador da sociedade e das regras que a regulam. Momento inaugural da queda do pai devido ao seu assassinato pelos filhos. Esse mito é importante neste trabalho pois irá tratar da questão do pai como organizador social e fundador de uma lei reguladora das relações entre a família e a sociedade. Às vezes Freud dá uma explicação estrutural e outras, biológica ou social, quando nos diz que o que funda o inconsciente seriam as instituições sociais, como  a igreja, o estado e o exército.  

   Lacan irá postular que há um organizador das relações sociais, do psiquismo, o qual ele deu o nome de NOME-DO-PAI – uma lei que está acima de nós e que nos antecede e nos determina.
   O que falta à estas crianças? Seria uma lei interditora do desejo incestuoso? Seria uma imagem, e a falta dessa imagem oferecida à criança como objeto a ser admirado e por isso mesmo desejado como objeto a ser identificado? , imagem que também possibilita trocas afetivas, sociais, libidinais com a criança. O pai na relação com o filho estabelece a reciprocidade desejante, transmite ao filho o seu valor narcísico, a sua capacidade de amar e ser amado, de ser reconhecido como sujeito desejável e desejante,  e o mais importante é que o pai o reconhece como filho por um desejo de dar continuidade a uma história pessoal geracional infinita... Continuidade através do filho de sua própria história, muitas vezes para dar um sentido à sua própria existência, sentido de tornar-se imortal através das gerações, ver-se repetido nos filhos, netos, bisnetos, tataranetos, poder reparar os erros cometidos pelas gerações passadas. De seu próprio pai, juntamente com as culpas vividas pelo seu ser criança, seus traumas, e poder através dos filhos elaborar os traumas, culpas, temores e impotências próprias. Ter  filho para poder reparar o machismo, os desejos invejosos, destrutivos já que  acredito que a criança está no mundo como o grande mestre, aquela que nos ensina a esperar longamente um futuro, nos ensina a viver com alegria e entusiasmo, nos ensina a dividir e partilhar o tempo, o espaço, o amor, o trabalho, a vida com o outro. Mas esse pai falta, nada quer saber desse filho, o ignora, o rejeita, o maltrata, o marginaliza, o ofende, o violenta, o ignora e aí vem a enorme pergunta angustiógena: O que me falta para que o meu pai nada quer saber de mim? A criança atribui a alguma maldade própria  a negligência paterna... Torna-se muito difícil chegar a crueza de uma resposta que violenta o eu de qualquer pessoa: Sou um dejeto, ou nada sou para esse outro, sou a indiferença, sou o nada. Serei pior que outras crianças?  Sou feia, deformada?
    Questões que remetem ao ser desejante, ser estético, ser ético – o bem e o mal, o justo-injusto,o verdadeiro-falso, serei digno, suficientemente bom para merecer esse reconhecimento e amor paterno? ; Ser existencial – deveria eu ter nascido? E se fosse em outro dia, teria sido diferente? O que será que aconteceu no dia em que nasci? Meu pai fugiu? Ou saiu correndo de mim? Meu pai morreu? Ou ele tem outra família? Ele ama os outros filhos? Por que não eu?
   São muitas histórias para contar e chorar e também rir depois que a criança compreende que há dentro de cada um de nós a capacidade para o amor... Há os pais assassinados pela mãe simbolicamente, pais “falecidos”sem estarem mortos na realidade, mães revoltadas com fortes sentimentos de abandono , desprezo e que transmitem à criança a sua menos valia, o seu amargor e como só resta à criança presença e apoio materno, só lhe resta se identificar com estes sentimentos, formando um duplo com a mãe, para que não corra mais um risco de perder  a única pessoa que lhe resta. Mães que questionam a sua própria existência, se faz sentido continuarem vivendo sem o amor desse marido que lhes deu uma criança e desapareceu... Questionam o valor de desejabilidade...
   Além dessas crianças sofrerem conscientemente, inconscientemente, ainda têm que enfrentar o preconceito social –filhos sem pai – têm que dar conta da demanda dos outros : Você não tem pai? Mas “ele não te desejou, não quis saber de você? “
   Com essa avalanche de sentimentos vão surgindo um número infinito de tentativas de poder levar a vida adiante com o menor sofrimento possível. Aparecem as vinganças contra esse desafeto – que é projetado nos outros, outros que se tornam  perseguidores, as vezes sádicos, malvados, desejosos do próprio sofrimento da criança. Outras vezes aparecem comportamentos masoquistas como tentativa de expiar a culpa por algum dano causado ao pai seja na fantasia ou na realidade.
   Muitas vezes me coloco como advogada de defesa dessas crianças e tento devolver a elas a força que lhes escapou ou foi violentada... A sua auto defesa para lidar com um mundo hostil, enganador, mentiroso, falso , omisso, perverso. O mundo que é o de muitas crianças que chegam até mim. Se este mundo não é real, a criança o imagina, o fantasia, o cria na tentativa de encontrar uma explicação para a falta desse pai -fantasma, que pode ter um sentido concreto, imaginário ou simbólico. A mãe muitas vezes impede que esse pai se faça presente na vida dos filhos, por vingança do abandono vivido, elas impedem o contato com o pai no intuito de atacá-lo, deixá-lo em falta para que sinta aquilo que elas viveram ao serem abandonadas, como eles a deixaram em falta de amor, de cumplicidade, de sexo, de companheirismo.
   Então a pergunta que sempre me faço: O que organiza o psiquismo dessa criança?  O que organiza a sua fantasmática?  Seria um saber que se sabe mas não se quer sabê-lo? Ou um saber que não se sabe? Seria o complexo edipiano? Seria o mito da horda primeva? Seriam fases de desenvolvimento mal organizadas? Seriam lutos mal feitos? Não simbolizados? Seriam falta de representações? Seriam impedimentos de elaboração de significação e resignificação da ausência paterna?  Como representar algo que está negativizado no psiquismo da mãe? Como significar alguém que a mãe odeia e esta é a única garantia da criança?

   Revisitando a história e suas vicissitudes, encontramos em primeiro momento uma anarquia absoluta reinando entre os sexos, ou seja, todos os homens pertencendo a todas as mulheres, poderíamos hoje fazer uma leitura desse momento como a de muita
promiscuidade. Em segundo momento os grupos foram se constituindo e só se relacionavam entre si ( ver Origem da família ,da propriedade privada  e Estado) ,  depois vem a monogamia – como diz Marx  - a maior invenção do século foi o complexo de édipo já que possibilitou através da interdição do incesto a construção  e ampliação da sociedade,  gerando muitas trocas sociais, econômicas, sexuais.  Surge a monogamia e com ela a apropriação da mulher , dos bens, e a conservaçào da propriedade. Como diz o provérbio popular “Ser mãe é uma  necessidade , enquanto ser pai é uma possibilidade” ,  já que ao longo dos anos o papel desse homem nomeado pai, era o de ser o  provedor de alimentos – provedor econômico??? Onde está o pai?  A única certeza que tinham em todos esses momentos era  a da maternidade. A mãe se engravidava do sol, da  lua ,da chuva, da terra que a  germinava. Vivemos desde tempos remotos numa sociedade matrilinear, no sentido de que cabe às mulheres a  concepção, educação dos filhos, o ensino da boa convivência familiar, o aprendizado da economia doméstica, a descoberta dos remédios que curam todas as nossas dores, o ensino do amor afetivo, das trocas afetuosas, o ensino da ética entre os irmãos , amigos, vizinhança. Ao homem, cabe trazer a caça para casa, ou seja, a construção de seu ser, de sua identidade já se inicia através de uma posse – posse de um bem material.
   Os motivos pelos quais  as pessoas têm me procurado na clínica são  devidos a relações muito intensas que as crianças e mães estabelecem entre si, o que gera consequências no desenvolvimento bio-psico social das crianças e produz relações de interdependência. Penso que é necessário que um terceiro ( não-mãe ) venha interceder nessa relação para que o sujeito se constitua como ser psíquico separado, independente e autônomo. Muitas crianças se tornam fóbicas, obesas –
devoradoras dos restos maternos, com sérios dificuldades na produção da escrita,  no entendimento dos fatores históricos da realidade, na construção de um saber sobre si mesmo, na construção de um eu corporal, imaginário e simbólico, inibições, timidez, vergonha, inveja, ciúmes, sentimentos de intenso ódio, competitividade exacerbada.  Como diz um amigo, a falta desse terceiro não pode deixar esconder o sol da alma e nem permitir que as palavras se calem. O que estamos vivendo seria uma ausência desse terceiro?Seria a falta desse terceiro o que estaria por trás desses sintomas??? Pergunta que traz inúmeras dúvidas e que requer um amplo estudo para que possamos nos aproximar de uma verdade ou de múltiplas verdades. Se faz  necessário que a criança veja, olhe para  o que não conhece e não sabe.... mesmo que esse sentimento lhe traga muita dor , o de saber que pode haver um outro que não a deseja ou que não a desejou, ou que não deseja a mãe e  a coloca no lugar de objeto de satisfação desta, a fim de se livrar de uma demanda de amor; e,  que há muitos outros que a desejam,  que a fazem sentir um ser desejado e por isso mesmo, desejante.
 Um fator importante na estruturação do sujeito psíquico é o brincar , e neste brincar está também implícito como os pais internalizaram o seu próprio brincar. O brinquedo tem um lugar importante na estruturação da subjetividade, já que o jogo-brinquedo é para a criança o seu primeiro objeto por onde ele escreve e se inscreve criando muitas brincadeiras. Penso em pais rígidos, obssessivoa, controladores, e que ao reprimirem o brincar e o jogar, o quanto estão produzindo nos filhos a inibição de uma autoria do pensamento, da escritura própria, a possibilidade de estarem construindo o próprio corpo  através do dar corpo ao brincar. Impedindo à criança de se mostrar e se fazer valer, ou seja, a ter valor enquanto sujeito criador. Ricardo Rudolfo nos diz que esse brincar seria o atravessador de todos os objetos de conhecimento que se produzem jogando, o que está em jogo seria também o corpo e a emoção. Para a criança esse brinquedo seria o espaço entre ela e o corpo da mãe. (Winnnicott)  ( revista 4 A Escrita}. Enquanto joga se vão armando laços intersubjetivos onde  a criança reconhece ao outro e o outro lhe reconhece enquanto ser. O brinquedo-jogar tem para a criança algo de vida própria, ele está vivo, e se a criança é impedida de ir-se construindo conjuntamente com suas inventividades, quanta dificuldade surgirá posteriormente, de brincar com suas próprias idéias, de mostrá-las ao outro, alargando a sua potência de  ser criador. Quantos sintomas podem ser produzidos a partir desses impedimentos. Uma questão que me tem tomado tempo em reflexões é o de encontrar respostas para articulação entre o brincar, o escrever e o mostrar a própria escrita.  É o caso daquela criança que sabe o conteúdo da matéria, mas que no momento da escrita, há uma falha. Não sai. A criança sofre uma inibição  impeditiva de se mostrar escrevendo. Há também o fator de que na escrita o sujeito se mostra para o outro. Esse outro seria representado como aquele que impediu o brincar?  E as mães que jogam fora os brinquedos ( que têm vida própria?), e a criança se sente como partes suas sendo destruídas, o que as faz sentir talvez como dejetos, restos mortos, ou pequenos assassinatos de sua alma? Como diz Ricardo Rudolfo, a criança ao escrever letras sobre um papel se repete algo com profundas diferenças do que se punha em jogo ... Ele fala da materialidade desse corpo que se escreve, e diz que a única maneira que o menino tem de subjetivar algo como corpo, seja como corpo próprio, corpo do outro, corpo do jogo-brinquedo, é através do brincar. E quando não consegue é porque só se deram adaptacões operatórias , mas não se deu um processo de escritura realmente subjetivante. Penso em uma criança que atendi, que se arrastava pela sala como um lobo, grunhia como um lobo. Em seu eu e corpo imaginário ficou inscrito que não poderia saber sobre sua origem.Poderemos pensar na questão do ser e da alteridade. A mãe lhe tirou o conhecimento sobre sua origem. Ela não pdia saber sobre o seu ser, então ao invés de  criar um espaço entre  ela e o outro, com a possibilidade de poder brincar de ser lobo e não sê-lo, restou-lhe a opcão  em ser algo que não fala, não pensa, não é sujeito desejante, mas um objeto bicho animado sem palavra, sem escritura própria, sem desejo, desejo de saber transformado em grunhidos. Ela era  desejada como alguém que não pode desejar saber, não pode ter acesso ao conhecimento, não pode indagar e nem dizer.  Para ela, só restava ser um lobo furioso com desejo de atacar . Segundo Ricardo Rudolfo, o brincar-jogar está na base de toda a corporeidade subjetiva ( corpo que não fala, que não brinca em ser ), mas que é o que o outro demanda – ser não pensante. Tudo que há de um corpo no sentido subjetivo, não se pode reduzir a coisa nem a um organismo biológico, não se pode cristalizar em uma forma, em uma identidade. Há jogos que foram em um momento e logo passam, e o que continua aí já não são joguetes. Será que poderíamos dizer que essa criança não jogou sendo o lobo, mas se colocou como sendo o lobo, encerrando o jogar, o brincar, pois o outro não lhe permitia outra saída, que seria a do dizer, denunciando que o pai não estava morto, e que ela o desejava, desejava sair da relação especular estabelecida com a mãe. Assim a mãe lhe dizia: O pai morreu. Nós sabemos que a criança se estrutura  a partir do olhar do outro sobre ela. No caso dessa criança, se não há quem os constitua como seres pensantes, se tornam coisas.
Osvaldo Saidon nos faz uma pergunta que considero relativa à essa questão que estamos discutindo: Que fazemos com a arte de viver ou como tratamos nossa vida em relação às artes diferentes de vivê-la? Será que quando a criança se coloca como sendo o lobo, é uma maneira de criar arte e de viver o personagem-lobo como arte de viver? Ao mesmo tempo que é um sintoma do silenciar-se, de uma morte psíquica, é também um desejo de continuar dizendo de forma animalesca aquilo que não pode advir em palavras, como nos diz Freud, o sintoma é uma tentativa de cura e ao mesmo tempo uma solução de compromisso entre um desejo e  uma defesa. No caso há o desejo de existir simbolicamente, tendo um sobrenome que contém sua origem e toda sua história, mas há que se defender por temor de perder o amor materno, já que vive esse amor como única garantia de sobrevivência. Se esta lhe falta, perde o chão que a sustenta , podendo advir uma psicose. Eu sentia nessa criança uma angústia profunda, a qual estava inscrita em seu corpo e em sua afetividade. Era arredia, não suportava aproximações, vinculações. Ela vivia a morte de um pai vivo. A mãe o chamava de falecido. Faltava à criança respostas para muitas perguntas que são fundantes e estruturantes do ser : Quem sou? Qual é minha origem? Na falta de uma palavra que a nomeia como ser simbólico, só pode se inscrever no corpo imaginário e simbólico  como coisa animal inexpressivo que grunhe. Assim construiu o seu território existencial para poder habitar o mundo e não sucumbir numa psicose. Ficava no limite entre a normalidade e a anormalidade. Na berlinda da vida ... Ao mesmo tempo ela produziu um acontecimento – só posso ser bicho, mas bicho forte e que ataca, se defende dessa selvageria dos grunhidos florestais, mostrando à mãe o que esta queria ocultar, que a criança deve se colocar como alienada em seu desejo de saber sobre sua origem, sobre o seu ser. A escritura irá colocar em jogo todos os acontecimentos que produzimos em vida.

Segundo Saidon , nos modos de existência, nos estilos de vida sempre tem uma estética da vida e uma ética. A dificuldade que nos produz a escritura, se inscrever-escrever-se como lobo, é justamente uma pergunta sobre a estética da vida, por ser uma indagação de como considerar o belo nela mesma – ser lobo é ser belo?  Já que ataca, se defende, se ama lobo, e o grunhido é como uma voz abafada, que nos coloca diante de um desejo de dizer, de denunciar, de se inscrever como sujeito de desejo. O estilo de vida se transformando em uma invenção. Parece ter sido necessário inventar uma forma de dizer o que era para ser ocultado, inventar uma nova possibilidade de vida.
Heloisa Antônia Franco