domingo, 21 de agosto de 2016

Poema em linha reta - Fernando Pessoa - voz de Paulo Autran

Fernando Pessoa por Paulo Autran (Poemas)

klínica do ∞


klínica do ∞

Este é um espaço para pensarmos o que estamos fazendo de nós mesmos.
Um olhar para o mundo hoje com tudo que o cerca, o ronda, o aborrece, o violenta, o estrangula, mas que também o alegra, o torna um laboratório de experimentações e criações alegres e potentes, neste século de tantas violências, ditaduras, horrores, genocídios de crianças, misérias.
A clínica com K é a clínica da grande saúde, lugar onde penso que poderíamos alcançar nesta vida. Um lugar de solidariedade, de convivência pacífica, de afetos incondicionais tendo a Terra como nosso corpo.
Vou contar as histórias que me fazem horrorizar, chorar, sofrer e me dão um trabalho enorme para que eu as processe e não sucumba ao ressentimento. O Re-sentir como uma doença maldita que não te dá sossego ao presenciar os absurdos deste século.
Então, escrever é uma maneira que encontro de processar tudo isto e tentar compreender um pouco em quê estamos nos tornando... e por quê.

Heloisa Antônia Franco

viernes, 19 de agosto de 2016

Mineirice em Säo Paulo.


 Fui em um banco para resolver a vida cotidiana e lá chegando começo a conversar com uma Senhora bancária, com cheiro de armário guardado no tempo, sem nenhum brilho no olhar e um ar de burocrata do dinheiro, mantenedora da mais valia e dos lucros muito bem guardados e  mal repartidos a quem de direito, ou seja, aos seres de nossa sociedade, nós mesmos. Sim... porque 0,64 % que pagam aos seres como juros mensais com o dinheiro nosso emprestado, se transformam em 14 % mensais quando emprestados pelo mesmo banco para os mesmos seres de nossa sociedade, nós mesmos. Valor, o qual, o mesmo banco cobra dos mesmos seres caso necessitem para terem uma vida digna, já que não têm condições próprias de bancarem saúde privada. A saúde pública demora a chegar até depois da morte, e com esta atitude há economia de gastos governamentais e  investimentos altos na construção de empresas privadas para que os seres possam envelhecer e adoecer com dignidade e respeito. Os seres que conseguem pagar privadamente a saúde por duas vezes, já que pagamos saúde e educação para todos, oficialmente. 
Estes mesmos seres que se matam de trabalhar e muitas vezes não têm o que comer, ou conseguem com o fruto de seus trabalhos possuírem uma casa própria que custa x e é vendida por 3x,conseguir uma escola pública digna para os filhos e faculdade que virou a indústria de profissionais, 100 alunos por sala de aula e o círculo vicioso retorna. 
Então, muitos destes seres morrem antes da consulta pública de saúde e muitos morrem também , depois de 60 anos de trabalho duro, sem a casa própria tao sonhada e desejada. 
Entäo, a mesma senhora pálida e burocrata me pergunta depois de longa conversa a perceber minha mineirice : Como faz um mineiro prá viver em Säo Paulo? Como consegue? Num tom de arrogância e desdém como se aquilo fosse da ordem de algo inaceitável e inconcebível. Säo Paulo, o império celeste esplendoroso e inalcançável para um mineiro  e Minas a ralé da ralé da ralé , a senzala estropiada da grande metrópole. Ou melhor , um estado sem passado, sem cultura própria, nos confins de um mundo desabitado e débil mental. Bom, vocês poderiam dizer, mas que exagero?, E mais, só falta essa agora, um mineiro em Säo Paulo desdenhando Säo Paulo, e ainda por cima paranóico!!! Este foi o tom que ouvi desde dentro, não foi o tom que eu gostaria que tivesse adentrado nos meus poros, nos meus ouvidos, na minha garganta. 
Assim poderia ter sido, ou melhor, eu preferiria ter escutado assim:  "Como um mineiro consegue deixar suas lindas montanhas com rios e cachoeiras, e os amigos sentados nas varandas para longos papos de final de tarde e boas caminhadas ao por do sol nos parques e praças, e depois longas conversas amigas banhadas a päo de queijo e um cafezinho feito com carinhos da vó, uns doces em calda de figo, pêssego, laranja, limäo.... Eu precisava  prestar esta homenagem a Minas de Milton Nascimento , Sebastiao Salgado, Guimarães Rosa, Oscar Niemeiyer , Paralamas do Sucesso, Carlos Drumond de Andrade, Juscelino Kubscheck , teatro Galpão, Mineirinho e tantos outros poetas , músicos, artistas, compositores, terapeutas...Que recebeu tantos exilados políticos da Argentina na época da ditadura , estado da música, da seresta, de Aleijadinho, de Ouro Preto, Mariana, Tiradentes e o festival de cinema.
Minha grande amiga de Goiás me disse: Somos os bobos de Goiás em Säo Paulo, nós e os maneirinhos bobos.
E então como resposta à senhora encadernada com cheiro de guardado de tanto esperar, sabe o quê???
Eu mostro a ela o retrato da pousada que adquiri com suas montanhas e rios e cachoeiras e o mar paulista, e digo: Vim para cá para encontrar o mar de Minas Gerais!!!
Heloisa Antônia Franco


A Morte


A MORTE
A morte anda chegando..ou arde chegando como se vê ao longe a fumaça... onde há fumaça há fogo. É assim mesmo, a impermanência da vida, sua brevidade de uma passagem, que pode ser de alegrias ou muita pauleira de tristezasE numa UTI. Então já que quero aproveitar mais uns anos resolvi parar de fumar. Afinal não nasci fumando, a empresa de cigarros que aprendi logo cedo, que a tal Sra Empresa de Cigarros não é nenhuma senhora boazinha, mas uma senhora que tem produzido muitas mortes por câncer, efisema pulmonar, asmas, bronquites , câncer de boca, laringe, faringe, garganta. Fora os problemas de úlcera, gastrite, câncer de intestino, câncer de estômago, de sangue. Fumar mata. Simples assim. Então ouvi de um rapaz quem trabalhava para a senhora dos cigarros que existia uma pesquisa sobre aqueles que morriam a cada ano devido ao uso de cigarros. Se morreram não irão comprar cigarros. O consumo cai, e a empresa  fica sem o lucro já habitual, então, é preciso construir novos consumidores. Como as empresas fazem com o número de óbitos por estado devido ao uso de cigarros e a diminuição estrondosa de lucros que perderam? Pesquisando, ora!!! Investem pesado em pesquisas de óbitos por inalação de nicotina dos cigarros e produção de câncer e seus mil e tantos produtos tóxicos, então investem em cada estado brasileiro, e nos estados brasileiros onde mais houveram óbitos, é preciso investir na noite com lindas meninas carregando as bandejas apetitosas por novos iniciantes consumidores com várias marcas de cigarros, abertas é claro, e, de todas as marcas para que se formem novos consumidores e têm que ser jovens, porque fumarão muitos anos, são os meninos que prometem o lucro e ganham de presente a morte. As meninas têm que ser lindas para seduzirem com a beleza do cigarro e o charme ao pegá-lo na mão e prometendo vida eterna. As bandejas são lindas, faltam apenas as flores as enfeitando, as flores já de seu futuro óbito. Então a empresa de cigarros volta a ter seus lucros, com seus novos consumidores prometidos à morte e suas lindas garotas compradas para servirem aos futuros defuntos.
Será que fazemos os filhos para morrerem num exército de fumantes? E a nós fumantes, nos resta a ignorância de eternos mantenedores de uma indústria da morte e de seus lucros horripilantes.
Heloisa Antônia Franco

AYAHUASCA

A Ayahuasca é uma planta medicina muito antiga usada pelos povos ancestrais. Não se sabe a origem de sua utilização. Näo importa, pois o que é importante é o caminho que ela abre para as portas ancestrais em nós ocultas em segredos por milênios, vêm à tona numa disparada sem fim. De repente o mundo está dobrado sobre nós. As tribos, os guerreiros, os feiticeiros, as nações, as guerras, os homens todos ali bem juntos como companheiros sábios da empreendedora viagem cósmica. Maravilha o mundo se abrindo a nós. Se dobrando sobre nós.Os eus das vaidades , dos orgulhos, das tristezas sem fim produzidas pelos poderes, legislativo porque tem que ser assim, executivo porque tem que fazer assim e judiciário porque tem que julgar assim, então adoecemos de egos que nos exigem um dever ser, com seus julgamentos e punições , e aí, no meio desta construção parafernálica de um eu, adoecemos. Nunca se tomou tanto antidepressivo e ansiolítico como neste século. Antes tínhamos com quem conversar , hoje, veja eu aqui sentada sozinha diante de uma máquina. Seria a falta de tempo-espaço para formar amigos? Só que máquinas são máquinas e são de aço, e a pele , o mais profundo ds órgãos quer ser tocada.
Destruir os egos, as vaidades, os orgulhos, a capitalização de poderes sobrenaturais, de energias, de transmutação de energias, de ser o melhor em capitalizar energias.Tem que destruir porque senão o desenvolvimento espiritual não chega. Olha-se no espelho do outro e não se enxerga, porque tá no jogo da representação  Um inferno astral, como diziam os hippies. As máscaras têm que cair pra evoluir se não você fixa num personagem e aí você tá perdido irmão. Vai viver em busca de espelhos da magia, do que fazer, como ser, o que comer, do que se alimentar, o que vestir, o que falar, que carro comprar, o que adquirir, como viver, pra onde viajar, com quem sair, de quem ser amigo, no interesse.
Então, você fica perdido no país dos reflexos das representaçöes. Como diz Deleuze: É preciso por fim ao juízo. Por fim às morais, aos preconceitos, aos julgamentos, às produções infindas de culpas e pecados e penitências . 
A Ayahuasca acelera os processos da desalienaçäo e os potencializa em milênios de anos o que pra uma psicanálise levam dez anos , em uma sessão da planta medicina um universo se abre e ela entra no corpo pedindo a quebra destes valores morais .Uma psicanálise demora de dez a vinte anos  porque o sujeito vai viver uma transferência dirigida ao psicanalista a fim de que resolva suas questões edipianas com os pais, o que já dura 20 anos, e agora, são mais dez anos para dissolver as transferências produzidas artificialmente para os psicanalistas, aí já vão 40 anos e o analista comprou o apartamento próprio, mais um apartamento para o filho, trocou o apartamento velho por um novo, comprou um carro novo.  E aí?  Seria o caso de pensar que os médicos necessitam do prolongamento das doenças de seus clientes? Como uma amiga me contou que o médico percebia que os remédios estavam produzindo muitas reações nela e ficou com orgulho de assumir que a receita que ele havia dado a ela era totalmente inadequada para o caso. Minha amiga sofreu por um ano com remédio errado devido ao orgulho do sr.médico. Pode? 
Para divertir um pouco, tenho um amigo médico psiquiatra quem me contou esta piada. Durante muitos anos um velho médico cuidou de uma família toda durante toda a vida. A família sofria de um tipo de ferida genética nas costas. O velho médico parou de atender, se aposentou, e seu jovem filho, formado em medicina, continuou o tratamento da família toda. Era a época de médico de família. Chegando em casa o jovem e inexperiente médico filho disse ao pai: Pai, sabe aquela família que você atendia que sofria com aquelas feridas nas costas? O pai disse: claro que sei. Curei toda a família com apenas um remédio. Ao que o pai-médico respondeu: Mas meu filho, com estas feridas eu pude comprar nossa casa, comprar o apartamento pra vocês dois, formar você e seu irmão em medicina, e você, o que foi fazer???
E dá prá dormir com esse barulho?
Heloisa Antônia Franco


Oriente Heloisa Franco

SOU ORGÂNICA


Sou orgânica,
sou a Terra que me habita, sou a água que me liquefaz e me atira ao mar, nos abismos, sou sol que queima a vida, sou a terra úmida que me fertiliza, sou lua que ilumina, sou sombra e luz, sou ventania que me arrasta para lugares longínquos , sons de todas as moléculas que me habitam, sons de cada partícula sanguínea, do pulmão que produz torrentes de ar, furacões de fumaças, rim que vai limpando águas paradas, lixos emprestáveis que inundam o corpo de impurezas estranhas ao corpo, estômago que cria tempestades com copos dágua e alimentos sólidos produzindo uma grande orquestra como maestro o nosso coração e toda percussão arterial.
Torna-te o que tu és: um ser da natureza.
Torna-te a dobra do mundo. O mundo se dobra em nós. Somos a dobra do mundo. Somos a história do mundo. O mundo está todo dobrado em nós. Deleuze diz , somos as raças , as tribos, as nações, está tudo dobrado em nós . Se sou muitos, se sou todos, sou as multidões. Um dia no Japäo vi uma criança de uns oito meses brincando num computador...Não pude acreditar vindo eu do século passado. A criança mexia em todos os botõezinhos e o jogo acontecia. Esta tecnologia virtual avançada já estava nela. Não precisaram ensinar. É a dobra. Como diz D.Juan de Matus, índio mexicano tolteca, quem traz um modo de habitar o mundo de 25.000 anos atrás:  Há uma orquestra cósmica com todos os sons e palavras que foram pronunciados e emitidos pelas humanidades. Há esta orquestra cósmica e, se o silêncio se faz em nosso interior a grande orquestra nos adentra em cada poro ...Este  Som Infinito que faz corpo com nossas partículas sonoras, visuais , olfativas como os pássaros viajantes que vão trazendo e semeando no mundo toda a natureza. O mundo inteiro em nós. 
A natureza é pulsante .Todos os seres são perfeitos, o rio não pode esconder que corre, e nem a flor esconder que é flor. Somos a perfeiçao e para existir basta se ser completo. De nosso querido e sábio Fernando Pessoa.
Sou um com a natureza inteira.
Sou.... um ser da natureza.
Sou límpida clara de água a mais cristalina. Sou atravessada pelas forças sociais. Sou impura. Sou podridão. Sou água suja. Precisa por para quarar.
Os desejos de poder, riqueza e domínio desta mesma natureza.
O poder nos suja . Nos corrompe. Nos mata. O poder que destrói coisas belas, como canta Caetano Veloso.
É preciso praticar todos os dias a limpeza espiritual para não sucumbir às entranhas deste poder maldito, que corrompe as mais lindas sensaçoes deste ser da natureza que somos nós. Corrompe as mais belas amizades.
No livro de Nilton Bonder, "O segredo judaico de resoluções de problemas" , a grande questão que ele nos coloca :  Somos o que queremos e que quanto queremos? 
Afinal o que queremos? E que quanto queremos? Desejamos o suficiente? 
Afinal, que desejo é este em nosso querer?
Heloisa Antônia Franco

Centímetros da Morte ou seria de Beleza?



Centímetros da morte ou seria a vaidade produzida em massa por um mundo fake?
Centímetros a menos levam à morte. Vejam só, uma linda amiga , de cabelos longos negros, maravilhosa,  desejava uns centímetros a menos em suas coxas. Moral da história que não se falam e nem se contam... Na lipoaspiração, uma camada de gordura se desprendeu e se alojou no coração. Putz!!! Por causa de um pedacinho de carne vaidoso, angustiado, construção de um dever ser midiático produtor de tristezas, porque bem sabemos, que todo poder quer a tristeza, deseja entristecer para que o outro se torne fraco, um sujeito triste se torna despotencializado, desconfortado, deslocado dos ideais de beleza impostos pela sociedade e  aí o poder se faz forte e alcança toda sua produção capitalística a partir da exploração e produção de um excedente desejo inútil que simplesmente não irá nos trazer um vintém a mais de alegria, e, se por menos 2 cm você for feliz, então , não merece viver, ou merece? Eu não sei... Eu sei que tudo vale a pena quando a alma não é pequena, pensando bem junto com Fernando Pessoa que amo e respeito. A vida vale muito mais que 2 cm ou não? A vida é muito maior que 2 cm ou não?
Arriscar a vida no risco de poder perdê-la por 2 cm... Deixar para os filhos esta herança vaidosa suicida... os filhos merecem isto?  A sua vida vale a morte por 2 cm?
E quem produziu neste imaginário vaidoso feminino que 2 cm valem uma vida e uma morte?
Podemos responder de infinitas maneiras... O culto à beleza feminina pelo machismo brasileiro. Se não for bonita eu não como. Aí as pererecas enlouquecem. Passam fome, produzem anorexias, bulimias, mas não comem. Têm fome de cão, mas não comem. Na verdade têm fome de afeto, de amor, de cuidado... então se matam para obterem carinho.
E somente desejam fixamente, rigidamente a presença de um outro, que está no lugar deste salvador da vida. Então trocam a vida pelo salvador . Paradoxal, não?
Poderia também ser uma falta do amar a si mesmas, ou o cuidado de si, do corpo, deste amor por si que se recusa a se amar .
Uma linda jovem morena de cabelos longos morreu por medo de perder o amante.
Heloisa Antônia Franco

Anjinhos



Três crianças pedem o seu nascimento. Infinitas crianças pedem para viver, mas o mundo tem sido genocida de crianças que morrem por todo tipo de miséria: Afetiva, de alimentos, de colos, de não adoções.Penso que toda criança tem que ser adotada. Tem que ser criado um espaço dentro dos pais para que criem um espaço de afetos desejastes para aquele novo ser que está chegando para ficar por muito tempo e é um ser exigente nas aprendizagens de feiticeiro que chega com muita sede para aprender. Tem até crianças que são colocadas nos lixos, na nossa sangrenta TV já vi muitos destes casos. 
Uma delas nasceu mas a mäe ficou impedida de acolhê-la em seus braços. Foi colocada na roda de um convento para ser adotada, não por quem a desejasse, porque a mãe a desejava no fundo de sua alma, mas não podia adotá-la em seus braços. Questöes das sociedades morais, ridículas e estúpidas de juízos de valor putrificados. 
Outras crianças que pedem para nascer mas que não fazem a passagem pela Terra, encaminham-se diretamente a um outro espaço-tempo, onde a maternidade já não existe, e  já se transformam em anjos e, assim, a vida se constrói entre brumas no corpo da mãe. A memória ancestral permanece entre nós com muita culpa e o peso de uma tristeza sem fim que pede uma saída. Pode ser o ato de se limpar na busca de uma purificação que nunca se alcança... mas que insiste em ser alcançada pela limpeza de uma culpa que não dá sossego na alma. É uma dor que não cessa no corpo, no coração da mäe que não pode se expressar em sua plena maternidade. Ficou impedida. Ou foi parar numa roda de um mosteiro sabe-se lá qual seria. É só lágrimas ... não poder abraçar uma criança que se partiu para sei lá onde. É preciso se perdoar e amar este ser que pede passagem para o infinito celeste de paz. Deixem as crianças em paz. É preciso se perdoar, deixar os afetos se liquefazerem e se transformarem em lágrimas que limpam a alma dos amargores prendidos com fios de sangue. Temos que ser dignos do que nos acontece. Tudo que nos acontece é necessário para que aprendamos a viver de forma mais consistente e com alegria.
Havia uma criança que se foi aos seis anos em busca de uma vida com amor. O amor é tudo nesta vida. Não tem força que se equipare a este afeto. O amor abstrato que não se dirige a um ser, mas que é um amor expandido. A criança se foi com a malinha na mäo e fez um pacto consigo mesma: adotarei o mundo como minha família. De agora em diante sou eu e o mundo. Serão muitas pessoas a me cuidar e eu a cuidar delas. E assim se fez a profecia auto-realizadora. Buscou um colo, um abrigo , uma cidade e muitos amores. E assim se foi e se fez. É preciso repetir muitas vezes as profecias que se fizeram como a vontade de potência que Nietzsche nos fala, desejar o mesmo acontecimento milhões de vezes , pois foram muitos os pactos e contratos que a criança fez consigo própria a fim de dar conta de sua solidão e de um abandono que ela não estava preparada. Por isto sempre cito a magnífica profecia de Deleuze: Educar é reconciliar a criança com a sua solidão. Os pais onde estavam??? me pergunto. Deveriam ter dito: Seu lugar é aqui conosco .... mas veio o silêncio e a autorizaçao da partida, como se uma voz chegasse à criança: Vá! Aqui não há lugar para você. E foi o que a criança entendeu nos seus seis anos de idade. Partiu e chegou ao seu destino profetizado. É aqui meu lar. E assim ficou feliz e contente. Tinha enfim encontrado seu abrigo de amor. Anos se passaram e tudo correu bem. Foi amada. Sempre o amor. Um dia a mäe adotiva se vai e se descobre que uma criança havia nascido e que esta mesma mäe não pode realizar a maternidade com a criança. Surge na criança de seis anos a dúvida. Fui amada? Ou fui a substituída de uma criança colocada numa roda das freiras que não pode ser nem conhecida e amada? A eterna repetição do mesmo ou do diferente? Mas a criança já havia sido amada e se sentiu assim. Mas na memória havia uma outra, viva mas desaparecida do olhar materno. A mäe adotiva pede nas horas que está se separando da Terra: Cuide de minha criança, onde estão levando a minha menina... cuide de minha menina. Hoje elas se encontraram ... se abraçaram em meus braços e eu nem sabia que a dor era täo grande.... mas o amor veio, chegou devagarinho e elas puderam se encontrar em outros planos, se abraçarem em meus braços que se transformaram em leito de vida virtual celeste. E eu as amei e chorei.
Heloisa Antônia Franco. A que ama as crianças.

A MÁQUINA DEVIR-CRIANÇA

                 PRESTEM ATENÇÃO NO QUE DIZEM AS CRIANÇAS.  Era uma máquina de escrever Olivetti, da década de 20, que ganhei de um grande amigo, dono de uma velha indústria que sabia que eu amava memórias falantes de passados remotos. Ganhei de presente há exatos 33 anos quando me formei em Psicologia. Uma herança de gerações  que ganhei para que continuasse as novas memórias que viriam sob o céu que nos protege. Ficava sempre sobre a minha mesa do consultório. Dentro dela um rolo de fax, também muitos rolos de herança para que fossem escritos nas afecções de nossas vidas diárias, infinitos acontecimentos, onde cada um ia deixando uma carta para que pudessem se comunicar com outros seres do tempo. E assim deixavam como testemunha as escritas de uma dor, de um sofrimento, de um pedido de serem escutados.
Parafraseando Fernando Pessoa, temos que transformar as cartas rir´iculas em cartas de amor. E eu pensava: As crianças estão transformando as palavras ridículas que ouviam em palavras de amor endereçadas à outras crianças que iriam entender exatamente ao ridículo que elas estavam se referindo. Ao desejo do desejo dos pais, que elas se tornassem aquilo.
As crianças deixavam as doces ou amargas lembranças e quando voltavam ao consultório corriam para verem se havia uma resposta com este desconhecido interlocutor que também era conhecido nas semelhanças destas histórias infantis que as crianças vão escrevendo dentro de si e produzindo tantas teorias acerca do humano adulto, da natureza destruída. Como diz o índio no filme "O abraço da Serpente" mirando as atrocidades dos jesuítas na catequização dos índios na Amazônia Colombiana: Se isto é homem, eu sou cobra!!!  Dei o nome à máquina de Devir-Criança, pois em cada um de nós habita uma criança que não quer perder a existência, uma criança que clama por alegria, inocência e a crença num mundo melhor, justo, transparente, lúcido, alegre e amigo. Toda criança que nos habita mesmo que esteja adormecida deseja crer que o mundo é feito de amigos , irmãos, companheiros que não nos abandonarão, nunca. E que o mundo não é feito de interesses, bajulações, violências afetivas e abandonos. Deleuze, meu grande guia na vida, me mostrou que a clínica é escrita com K, porque é a Klínica da grande saúde, a Klínica Expandida a todos os povos, tribos, raças... E o Xamanismo me ensinou que somos o Corpo da Terra, somos todos um só na imanência da vida. Com Deleuze aprendi na Klínica que " Educar uma criança é reconciliá-la com a sua solidão".  E a máquina de escrever o tempo é um dispositivo terapêutico para que um devir-criança advenha nos territórios da solitude alegre.
Era um dia triste, muito triste quando olhei para aquela máquina de escrever Olivetti e pensei no longo tempo em que ela estava comigo, na composição de tantas histórias tristes e alegres cúmplices e, assim, chegou a minha vez de escrever. Era muita dor e eu necessitava de muitos rolos de fax, e, então retirei o rolo de fax e me pus a contar toda uma história de muitos amores, muitas dores, em busca daqueles momentos que ficam nas memórias de nossas sensações, grudadas e fixadas nas nossas entranhas formando invaginaçöes espaciais-semespaços-temporais-atemporais. Me pus a reconstruir cada momento daquela história de amor. Em que momento o amor acabou. teria acabado o amor no amor? Como diz Afonso Romano de Santana. Me pus a buscar enlouquecidamente este instante do acontecimento: o fim, a começar pelo namoro, os encontros, as experimentações, as músicas, e como o amor tinha nascido pedia uma aliança a ser selada e o desejo de dar continuidade através dos filhos que viriam. Eram 6. Três de um lado e três de outro formando 6. Era este o sonho e o  livro Fax-Máquina do Tempo foi-se fazendo por uma linda história cheia de tumultos, oposições, discussões, dúvidas de uma jovem que aos 14 anos de idade pensava que amava, e aos 18 anos havia passado no vestibular e queria também colocar uma mochila nas costas e sair para o mundo. Mas faltava a coragem da renúncia ao sonho da bela adormecida täo impregnada em nossos corações, em nosso feminino. A bela adormecida para a vida nômade-viajante-andarilha. Também havia uma criança órfã necessitada de um lar, uma criança com seus 18 anos que se sentia sem chão, sem amor ...Vislumbrou poder construir e viver uma beleza de lar e família. Optou e foi. E foi pregando as lembranças , as imagens e palavras ridículas transformadas em cartas de amor, como diz Fernando Pessoa. E o filme da vida foi-se fazendo com as imagens, dores , espaços limpos, fluidos, vacúolos de ausência, vazios para que fossem preenchidos, transbordamentos de sensações, imagens e  tensões; excessos de memórias e palavras sujas, turvas e obscuras, segredos muitos e muitas mentiras.  Neste dia eu precisava colocar na máquina todos os tempos para que o mundo pudesse me ouvir no eco de tanta dor que meu corpo uivava. Era o dia que descobri mais tarde que quando se perde um grande amor o que dói é a perda de uma cumplicidade que se foi entre duas pessoas, e que o que você diz , você o diz para as paredes...o muro branco... pois aquele que você amava já não está mais ali e não te comunicou... já não temos mais o que fazer... é um uivo de animal que berra em todos as partículas de seu corpo, nas entranhas das células, no sangue das veias que já não querem mais correr  e que não encontra limite nem parada, pois o outro não está mais. Se foi. Não te avisou. Não tem quem escute o grito...ele caminha para o abissal das trevas mais obscuras e profundas pois nem grito para o outro há!!! Que triste!!! E você fica naquele lugar da louca, de fato , a louca que vive num mundo que não mais existe, que é uma ficção, mas o outro não diz a você que é real, que realmente ele não mais existe. Em um segundo , o outro lhe diz : Amo outra pessoa há muitos anos. Näo habito esta cumplicidade há muito tempo... e aí tudo fica claro.... ele já não estava mais ali. Já tinha partido. E...como ninguém é de ninguém temos que amar o amor do outro. Amar esta coisa preciosa e täo rara hoje em dia, o amor, e entäo, se alguém te deixa por amor, é só agradecer. Agradecer as portas que se abrem para que você possa viver um grande novo amor, ou muitos amores, ou muitos amigos no amor ou o amor expandido num coração expandido que produz a grande festa da alegria junto àqueles que te amam. O universo no amor incondicional por todas as coisas preciosas que nos habitam dentro e fora. Nada tem importância quando o amor te invade e toma conta de seu ser e, assim saímos do devir-camelo, aquele que carrega nas costas todas as dores do mundo... e entramos num eterno devir-criança, dançando para a vida em sua plenitude de oferendas que ela te dá. Que assim seja. Oxalá.
Heloisa Antônia Franco . A que ama crianças








Orfandade de Memória


A Memória se foi  e com ela a dor...Alzheimer, a morte em vida de uma presença ausência produzindo uma orfandade .
Tenho pensado muito no que faz produzir a Alzheimer. Minha querida mäe está numa clínica em que o número de pessoas residentes com Alzheimer é de 22 pessoas. Muitas destas pessoas são intelectuais, trabalharam arduamente na vida, exerceram uma importante função social, educacional, desbravando novos territórios , mas que aos poucos a memória já não quer lembrar.... não quer lembrar de algo muito sofrido que lhes acometeram no meio do caminho... já se torna dura a caminhada pós algum acontecimento que enche a alma de desgosto e tristeza. o gosto de viver se vai junto com a memória de uma dor da ordem do insuportável. Um companheiro de vida se foi... um neto se foi..um amigo, um neto, uma filha se suicidou.... um companheiro se foi ... e se foi com outra pessoa.... um amor se foi.... 
Clarice Lispector nos diz que quem perde um pai ou mäe é órfão, quem perde um companheiro é viúvo ou divorciado, separado, desquitado ... mas quem perde um filho a dor é de tal ordem que não há uma palavra que a defina, porque a palavra não dá conta da grandeza desta dor... perder alguém que você construiu desde uma sementinha que ia brotando aos poucos e se fazendo gente... na troca de afetos , rumores, conversas que vão se estabelecendo entre.
Então a Alzheimer é a mais pura expressäo deste nome , desta palavra que falta, que falha, que não encontra uma ressonância no mundo afetivo...palavra sem memória, inexistente, continuando Clarice, a palavra falta.
Estamos muito pouco preparados para as perdas... Deleuze nos diz: Educar é reconciliar a criança com a sua solidão. Nascemos e já poderíamos  amar a nossa solitude. Cada instante de silêncio que nos povoa, nos habita. estarmos em nossa solitude, ouvindo lindos sons em composição com a natureza e ficarmos sós apreciando o silêncio. Walden II, livro de Skinner que marcou minha vida quando o li aos 12 anos de idade, "A sociedade do futuro", as crianças são criadas por toda a sociedade, por que? Porque nós somos a sociedade. Nós nos compomos com ela, então , cada um é responsavel por todas as crianças que nascem. por seu bem estar, pela produçäo de uma fábrica de alegrias e confortos, e a afirmação de uma coletividade para todos que chegam e que vão embora. Assim somos recebidos ao mundo em Walden II., a sociedade do futuro. Mas há todo o processo da projeção dos fracassos em vida na vida que se inicia dos filhos. O desejo de que como não consegui ... meu filho terá que conseguir para mim e por mim. Cria-se esta dívida infinita na vida, entre pais e filhos, entre nós e pais. Insisto sempre em dizer: estamos na vida de passagem. somos passageiros de uma longa viagem em que podemos ver paisagens magníficas porque a vida está repleta de preciosidades, mas não, podemos também insistir naquilo que falta. Estarmos na nostalgia de um passado não realizado, não conquistado, amargo... e amargura de muitas coisas não conseguidas, eu tenho achado que é a grande causa da perda de memória. a urgência de esquecer o que não podia ser. Triste!!!!
Heloisa Antônia Franco.