Mineirice em Säo Paulo.
Fui em um banco para resolver a vida cotidiana e lá chegando começo a conversar com uma Senhora bancária, com cheiro de armário guardado no tempo, sem nenhum brilho no olhar e um ar de burocrata do dinheiro, mantenedora da mais valia e dos lucros muito bem guardados e mal repartidos a quem de direito, ou seja, aos seres de nossa sociedade, nós mesmos. Sim... porque 0,64 % que pagam aos seres como juros mensais com o dinheiro nosso emprestado, se transformam em 14 % mensais quando emprestados pelo mesmo banco para os mesmos seres de nossa sociedade, nós mesmos. Valor, o qual, o mesmo banco cobra dos mesmos seres caso necessitem para terem uma vida digna, já que não têm condições próprias de bancarem saúde privada. A saúde pública demora a chegar até depois da morte, e com esta atitude há economia de gastos governamentais e investimentos altos na construção de empresas privadas para que os seres possam envelhecer e adoecer com dignidade e respeito. Os seres que conseguem pagar privadamente a saúde por duas vezes, já que pagamos saúde e educação para todos, oficialmente.
Estes mesmos seres que se matam de trabalhar e muitas vezes não têm o que comer, ou conseguem com o fruto de seus trabalhos possuírem uma casa própria que custa x e é vendida por 3x,conseguir uma escola pública digna para os filhos e faculdade que virou a indústria de profissionais, 100 alunos por sala de aula e o círculo vicioso retorna.
Então, muitos destes seres morrem antes da consulta pública de saúde e muitos morrem também , depois de 60 anos de trabalho duro, sem a casa própria tao sonhada e desejada.
Entäo, a mesma senhora pálida e burocrata me pergunta depois de longa conversa a perceber minha mineirice : Como faz um mineiro prá viver em Säo Paulo? Como consegue? Num tom de arrogância e desdém como se aquilo fosse da ordem de algo inaceitável e inconcebível. Säo Paulo, o império celeste esplendoroso e inalcançável para um mineiro e Minas a ralé da ralé da ralé , a senzala estropiada da grande metrópole. Ou melhor , um estado sem passado, sem cultura própria, nos confins de um mundo desabitado e débil mental. Bom, vocês poderiam dizer, mas que exagero?, E mais, só falta essa agora, um mineiro em Säo Paulo desdenhando Säo Paulo, e ainda por cima paranóico!!! Este foi o tom que ouvi desde dentro, não foi o tom que eu gostaria que tivesse adentrado nos meus poros, nos meus ouvidos, na minha garganta.
Assim poderia ter sido, ou melhor, eu preferiria ter escutado assim: "Como um mineiro consegue deixar suas lindas montanhas com rios e cachoeiras, e os amigos sentados nas varandas para longos papos de final de tarde e boas caminhadas ao por do sol nos parques e praças, e depois longas conversas amigas banhadas a päo de queijo e um cafezinho feito com carinhos da vó, uns doces em calda de figo, pêssego, laranja, limäo.... Eu precisava prestar esta homenagem a Minas de Milton Nascimento , Sebastiao Salgado, Guimarães Rosa, Oscar Niemeiyer , Paralamas do Sucesso, Carlos Drumond de Andrade, Juscelino Kubscheck , teatro Galpão, Mineirinho e tantos outros poetas , músicos, artistas, compositores, terapeutas...Que recebeu tantos exilados políticos da Argentina na época da ditadura , estado da música, da seresta, de Aleijadinho, de Ouro Preto, Mariana, Tiradentes e o festival de cinema.
Minha grande amiga de Goiás me disse: Somos os bobos de Goiás em Säo Paulo, nós e os maneirinhos bobos.
Minha grande amiga de Goiás me disse: Somos os bobos de Goiás em Säo Paulo, nós e os maneirinhos bobos.
E então como resposta à senhora encadernada com cheiro de guardado de tanto esperar, sabe o quê???
Eu mostro a ela o retrato da pousada que adquiri com suas montanhas e rios e cachoeiras e o mar paulista, e digo: Vim para cá para encontrar o mar de Minas Gerais!!!
Heloisa Antônia Franco
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