viernes, 19 de agosto de 2016

Anjinhos



Três crianças pedem o seu nascimento. Infinitas crianças pedem para viver, mas o mundo tem sido genocida de crianças que morrem por todo tipo de miséria: Afetiva, de alimentos, de colos, de não adoções.Penso que toda criança tem que ser adotada. Tem que ser criado um espaço dentro dos pais para que criem um espaço de afetos desejastes para aquele novo ser que está chegando para ficar por muito tempo e é um ser exigente nas aprendizagens de feiticeiro que chega com muita sede para aprender. Tem até crianças que são colocadas nos lixos, na nossa sangrenta TV já vi muitos destes casos. 
Uma delas nasceu mas a mäe ficou impedida de acolhê-la em seus braços. Foi colocada na roda de um convento para ser adotada, não por quem a desejasse, porque a mãe a desejava no fundo de sua alma, mas não podia adotá-la em seus braços. Questöes das sociedades morais, ridículas e estúpidas de juízos de valor putrificados. 
Outras crianças que pedem para nascer mas que não fazem a passagem pela Terra, encaminham-se diretamente a um outro espaço-tempo, onde a maternidade já não existe, e  já se transformam em anjos e, assim, a vida se constrói entre brumas no corpo da mãe. A memória ancestral permanece entre nós com muita culpa e o peso de uma tristeza sem fim que pede uma saída. Pode ser o ato de se limpar na busca de uma purificação que nunca se alcança... mas que insiste em ser alcançada pela limpeza de uma culpa que não dá sossego na alma. É uma dor que não cessa no corpo, no coração da mäe que não pode se expressar em sua plena maternidade. Ficou impedida. Ou foi parar numa roda de um mosteiro sabe-se lá qual seria. É só lágrimas ... não poder abraçar uma criança que se partiu para sei lá onde. É preciso se perdoar e amar este ser que pede passagem para o infinito celeste de paz. Deixem as crianças em paz. É preciso se perdoar, deixar os afetos se liquefazerem e se transformarem em lágrimas que limpam a alma dos amargores prendidos com fios de sangue. Temos que ser dignos do que nos acontece. Tudo que nos acontece é necessário para que aprendamos a viver de forma mais consistente e com alegria.
Havia uma criança que se foi aos seis anos em busca de uma vida com amor. O amor é tudo nesta vida. Não tem força que se equipare a este afeto. O amor abstrato que não se dirige a um ser, mas que é um amor expandido. A criança se foi com a malinha na mäo e fez um pacto consigo mesma: adotarei o mundo como minha família. De agora em diante sou eu e o mundo. Serão muitas pessoas a me cuidar e eu a cuidar delas. E assim se fez a profecia auto-realizadora. Buscou um colo, um abrigo , uma cidade e muitos amores. E assim se foi e se fez. É preciso repetir muitas vezes as profecias que se fizeram como a vontade de potência que Nietzsche nos fala, desejar o mesmo acontecimento milhões de vezes , pois foram muitos os pactos e contratos que a criança fez consigo própria a fim de dar conta de sua solidão e de um abandono que ela não estava preparada. Por isto sempre cito a magnífica profecia de Deleuze: Educar é reconciliar a criança com a sua solidão. Os pais onde estavam??? me pergunto. Deveriam ter dito: Seu lugar é aqui conosco .... mas veio o silêncio e a autorizaçao da partida, como se uma voz chegasse à criança: Vá! Aqui não há lugar para você. E foi o que a criança entendeu nos seus seis anos de idade. Partiu e chegou ao seu destino profetizado. É aqui meu lar. E assim ficou feliz e contente. Tinha enfim encontrado seu abrigo de amor. Anos se passaram e tudo correu bem. Foi amada. Sempre o amor. Um dia a mäe adotiva se vai e se descobre que uma criança havia nascido e que esta mesma mäe não pode realizar a maternidade com a criança. Surge na criança de seis anos a dúvida. Fui amada? Ou fui a substituída de uma criança colocada numa roda das freiras que não pode ser nem conhecida e amada? A eterna repetição do mesmo ou do diferente? Mas a criança já havia sido amada e se sentiu assim. Mas na memória havia uma outra, viva mas desaparecida do olhar materno. A mäe adotiva pede nas horas que está se separando da Terra: Cuide de minha criança, onde estão levando a minha menina... cuide de minha menina. Hoje elas se encontraram ... se abraçaram em meus braços e eu nem sabia que a dor era täo grande.... mas o amor veio, chegou devagarinho e elas puderam se encontrar em outros planos, se abraçarem em meus braços que se transformaram em leito de vida virtual celeste. E eu as amei e chorei.
Heloisa Antônia Franco. A que ama as crianças.

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