viernes, 19 de agosto de 2016

Orfandade de Memória


A Memória se foi  e com ela a dor...Alzheimer, a morte em vida de uma presença ausência produzindo uma orfandade .
Tenho pensado muito no que faz produzir a Alzheimer. Minha querida mäe está numa clínica em que o número de pessoas residentes com Alzheimer é de 22 pessoas. Muitas destas pessoas são intelectuais, trabalharam arduamente na vida, exerceram uma importante função social, educacional, desbravando novos territórios , mas que aos poucos a memória já não quer lembrar.... não quer lembrar de algo muito sofrido que lhes acometeram no meio do caminho... já se torna dura a caminhada pós algum acontecimento que enche a alma de desgosto e tristeza. o gosto de viver se vai junto com a memória de uma dor da ordem do insuportável. Um companheiro de vida se foi... um neto se foi..um amigo, um neto, uma filha se suicidou.... um companheiro se foi ... e se foi com outra pessoa.... um amor se foi.... 
Clarice Lispector nos diz que quem perde um pai ou mäe é órfão, quem perde um companheiro é viúvo ou divorciado, separado, desquitado ... mas quem perde um filho a dor é de tal ordem que não há uma palavra que a defina, porque a palavra não dá conta da grandeza desta dor... perder alguém que você construiu desde uma sementinha que ia brotando aos poucos e se fazendo gente... na troca de afetos , rumores, conversas que vão se estabelecendo entre.
Então a Alzheimer é a mais pura expressäo deste nome , desta palavra que falta, que falha, que não encontra uma ressonância no mundo afetivo...palavra sem memória, inexistente, continuando Clarice, a palavra falta.
Estamos muito pouco preparados para as perdas... Deleuze nos diz: Educar é reconciliar a criança com a sua solidão. Nascemos e já poderíamos  amar a nossa solitude. Cada instante de silêncio que nos povoa, nos habita. estarmos em nossa solitude, ouvindo lindos sons em composição com a natureza e ficarmos sós apreciando o silêncio. Walden II, livro de Skinner que marcou minha vida quando o li aos 12 anos de idade, "A sociedade do futuro", as crianças são criadas por toda a sociedade, por que? Porque nós somos a sociedade. Nós nos compomos com ela, então , cada um é responsavel por todas as crianças que nascem. por seu bem estar, pela produçäo de uma fábrica de alegrias e confortos, e a afirmação de uma coletividade para todos que chegam e que vão embora. Assim somos recebidos ao mundo em Walden II., a sociedade do futuro. Mas há todo o processo da projeção dos fracassos em vida na vida que se inicia dos filhos. O desejo de que como não consegui ... meu filho terá que conseguir para mim e por mim. Cria-se esta dívida infinita na vida, entre pais e filhos, entre nós e pais. Insisto sempre em dizer: estamos na vida de passagem. somos passageiros de uma longa viagem em que podemos ver paisagens magníficas porque a vida está repleta de preciosidades, mas não, podemos também insistir naquilo que falta. Estarmos na nostalgia de um passado não realizado, não conquistado, amargo... e amargura de muitas coisas não conseguidas, eu tenho achado que é a grande causa da perda de memória. a urgência de esquecer o que não podia ser. Triste!!!!
Heloisa Antônia Franco.

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