domingo, 9 de octubre de 2016

Sobre a pretensa natureza linguistica do inconsciente





FREUD
NIETZSCHE
JUNG





















SOBRE A PRETENSA NATUREZA LINGUÍSTICA DO INCONSCIENTE

     

Na primeira tópica. O inconsciente era assimilado aquilo que no conflito era repudiado. Isto é, o polo pulsional recalcado. O que implicava reconhecer inconsciente e recalque, por um lado, e de outro, a instância recalcadora, no sistema pré-consciente-consciente. Esse é um dos pontos em que Freud insistiu em O EGO E O ID para justificar a introdução da Segunda tópica. Por volta de 1920 Freud irá assumir que a defesa é também inconsciente:
Entretanto, visto não poder haver dúvida de que essa resistência emana do seu ego e a este pertence, encontramo-nos numa situação imprevista. Deparamo-nos com algo no próprio ego que é também inconsciente, que se comporta exatamente como recalcado – isto é, que produz efeitos poderosos sem ele próprio ser  consciente e que exige um trabalho especial antes de poder tornar se consciente. Do ponto de vista da prática analítica, a  consequência dessa descoberta é que iremos parar em infindáveis obscuridades e dificuldades se nos ativermos  a nossas formas habituais de expressão e tentarmos, por exemplo, derivar as neuroses de um conflito entre o consciente e o inconsciente[1].
Nas novas conferências . . ., o argumento aparece da seguinte forma:
Há muito deveríamos ter feito a pergunta: de que parte de sua  mente (do paciente) surge uma resistência inconsciente de tal ordem? O principiante em psicanálise está pronto a responder, de  imediato: é naturalmente a resistência do inconsciente. Resposta ambígua e inútil! Se significa que a resistência surge do recalcado, devemos acrescentar: certamente não! . . . A resistência só pode ser manifestação do ego que originalmente forçou o recalque e agora deseja mantê-lo. Ademais, essa é a opinião que sempre tivemos. Se, pois, na análise nos deparamos com o caso de a resistência não deve ser consciente para o paciente, isto significa que , em situações muito importantes , o superego e o ego podem operar inconscientemente ou que – e isto seria ainda mais importante – parte de ambos, do ego e do  superego, são inconscientes. Nos dois casos temos de contar com a desagradável descoberta de que, por um lado, o superego e o consciente e,  por outro lado, o recalcado e o inconsciente não são de modo algum coincidentes[2].
Freud nos diz que essa questão de se saber a cerca do inconsciente não se confunde com o “sistema” inconsciente da forma como é descrito na primeira tópica, como o lugar, por excelência, do recalcado. Há muitos modos de funcionamento do aparelho psíquico, como se defender, escamotear, recalcar, isolar, mecanismo provenientes do ego, e  sujeito não tem consciência desses por serem inconscientes. Portanto, o ego também tem partes inconscientes que não se confundem com o sistema inconsciente, tal como é conceituado na primeira tópica.
         No artigo de 1915, O INCONSCIENTE, o qual representa o ponto culminante da primeira tópica do aparelho psíquico, a teoria topográfica, Freud tenta forjar uma representação coerente dos conteúdos e do modo de funcionamento do inconsciente. Neste texto,  Freud tende a identificar componentes básicos do inconsciente com as representações, tomando esse termo na sua acepção mais larga possível.  O inconsciente é habitado por traços mnésicos, fragmento desses traços, imagens, ou a combinação delas tendendo a formar uma “cena”, o fantasma inconsciente. Freud viu-se obrigado a pensar no estatuto das pulsões, pois até 1915 ele fora um pouco vago com relação a esse tema. A pulsão é de origem incontestavelmente orgânica, e neste texto Freud coloca o problema da inscrição psíquica das moções pulsionais. A pulsão enquanto tal é e nos será sempre desconhecida. O que aparece no plano psíquico é um seu representante, um seu delegado. O texto central de Freud no início da sessão III do artigo é o seguinte:
De fato, penso que  a oposição entre consciente e inconsciente não se aplica à pulsão. Uma pulsão não pode nunca tornar-se objeto da consciência, só o pode através de representação que a represente. Além disso, no inconsciente também, a pulsão pode ser representada senão pela representação .Se a pulsão não estivesse ligada a uma representação ou  não aparecesse sob a forma de afeto, nada poderíamos saber. Mas, se falamos, no entanto, de uma moção pulsional recalcada, trata-se de uma negligência de expressão sem consequência de expressão sem consequência. Não podemos entender outra coisa senão uma noção pulsional da qual o representante-representação é inconsciente[3] . . .”
         E a respeito dos sentimentos, emoções, seriam eles inconscientes? Freud usa a expressão como “sentimento inconsciente de culpa”, mas Freud[4] avisa é da essenciaa do sentimento ser percebido, ser conhecido pela consciência”.


Nesse caso, é claro que “para os sentimentos, as sensações, os afetos, a possibilidade de ser inconsciente desaparece completamente.. Freud sustenta a tese fundamental da independência entre o afeto e representação. O que é recalcado e portanto passa a  existir no regime do inconsciente é a  representação á qual esse fato está originalmente ligado. Processado o recalque, o afeto se encontra livre e frequentemente se desestrutura em angústia.
Com seu representante próprio (do afeto) tendo sido recalcado, ela (  a moção de afeto) foi coagida a se ligar a uma outra representação e é agora tida pela consciência como a manifestação desta última. Quando restabelecemos a conexão exata, chamamos de inconsciente a moção de afeto originária, se bem que seu afeto não foi nunca inconsciente e só a representação sucumbiu ao recalque.” [5]
Esta mesma representação será retomada por Freud no cap II de O EGO E O ID.
         Vemos, portanto, que o inconsciente é composto por representações que subdividiram em 2 grupos: representações pulsionais e representações daquilo que é enviado para o  inconsciente através do processo do recalque.
Reconhecemos que o inconsciente não coincide com o recalcado; é ainda verdade que tudo o que é recalcado é inconsciente, mas nem tudo o que é inconsciente é recalcado . . . Quando nós vemos assim confrontados pela necessidade de postular um terceiro inconsciente, que não é recalcado, temos que admitir que a característica de ser inconsciente começa a perder significação para nós.”[6]
         Freud traz também a hipótese de que o inconsciente teria como componentes certas estruturas gerais e herdadas em TOTEM E TABU. Essa idéia de que existem certos mecanismos, certos esquemas de estruturação do psíquico pré-formados e hereditários conduzem, evidentemente, a uma concepção de inconsciente que ultrapassa em larga escala um inconsciente formado sobretudo de representações. No capítulo VI de TOTEM E TABU. Freud irá tratar do que seria o Núcleo do inconsciente:
Pode-se comparar o conteúdo do inconsciente a isso que seia, no domínio psíquico, uma população aborígene. Se existem no homem formações psíquicas herdadas, alguma coisa de análogo ao instinto dos animais, elas constituem o núcleo do inconsciente. Depois junta se a elas o  que foi eliminado no curso do desenvolvimento da criança como  inutilizável e que não precisa ser de uma outra natureza que aquilo que é herdado. Não é senão no momento da puberdade que se instala, geralmente, uma separação nítida e definitiva do conteúdo dos dois sistemas.”[7]
Vemos neste texto a palavra INSTINKT, ou seja, uma faceta de caráter nitidamente biológica e por outro lado, a identificação do  inconsciente com a teia das representações recalcadas, abordaremos a questão biológica do inconsciente mais adiante. No artigo, A Dissolução do Complexo de Édipo [8] também aparece a idéia de que a ontogênese repete a  filogênese  no campo psíquico, é uma constante em Freud, que, neste ponto, é um bom herdeiro do século XX, parafraseando Monzani.
         Segundo Monzani[9] os principais problemas da teoria, como: a dinâmica do conflito neurótico e a diferença entre ser inconsciente e pertencer ao sistema inconsciente: os modos de funcionamento do inconsciente: a remodelação da noção de ego e a composição do inconsciente, os quais apontam claramente a insuficiência da primeira tópica e direcionam já para a Segunda tópica já são conhecidas de Freud há longos tempo. Monzani diz que, até 1915,  aproximadamente, o discurso freudiano se vê frente a duas coisas que não parecem muito conciliáveis entre si: 1) a existência de uma topologia psíquica, que parece acarretar necessariamente a idéia de sistema (pré-consciente, consciente, inconsciente) em função da questão do estatuto da representação e 2) as contradições pelas quais a topologia  anímica faz com que essa concepção envedece . . . Duas hipóteses de solução quanto ao estatuto da representação tinham se apresentado a Freud: aquele que conhecemos como a topologia e outra de ordem econômica. É na sessão VII do artigo sobre O inconsciente que Freud irá propor uma terceira solução, no qual foi o texto sobre a  afasia que foi o inspirador dessa nova solução [ o trecho principal contido no estudo sobre a afasia, e que é pertinente para a distinção operada por Freud nesta sessão VII, está reproduzido no apêndice do artigo sobre o inconsciente] onde Freud isola o conceito de narcisismo e a abordagem das psicoses. A análise da esquizofrenia leva Freud  a postular uma distinção entre “representação de coisa e representação de palavras”. Assim demonstra Freud: “Vemos agora que aquela que denominamos a representação de objetos consciente pode se cindir em representação de palavras e  representação de palavras”. Assim demonstra Freud: “Vemos agora que aquela que denominamos a representação de objeto consciente pode se cindir em representação de palavra e representação de coisas. Esta última consiste no investimento senão de imagens mnésicas diretas de coisas, ao menos de traços mnésicos mais distantes e que derivam delas. Agora parece que  sabemos de imediato em que uma representação consciente se distingue de uma representação inconsciente: a representação consciente compreende  a representação de coisa mais a representação de palavra que lhe pertence; a representação inconsciente é somente representação de coisa.” (11)
         “Como podemos ver, estar ligado a representações de palavra ainda não é a mesma coisa que tornar-se consciente, mas limita-se a possibilitar que isto aconteça; é portanto algo característico do sistema pré-consciente, e somente desse sistema.” (12)
         No cap. II de O EGO E O ID, Freud assim coloca: “ Em outro lugar (Freud refere-se ao artigo sobre o inconsciente), já sugeri que a diferença real entre uma representação (pensamento) do inconsciente ou do pré-consciente consiste nisto: que a  primeira é efetuada em algum material que permanece desconhecido, enquanto que a última ( a pré-consciente) é além disso, colocada em vinculação com as representações verbais. Esta é a  primeira tentativa de indicar marcas distintas entre os dois sistemas, o pré-consciente e o inconsciente, além de sua relação com a consciente.”(13)
         Freud resolve portanto, o problema de estatuto da representação, sem abandonar a hipótese topográfica e a econômica. “Uma representação é inconsciente porque está ou foi deslocada não para um determinado lugar; é o resultado de  um trabalho que sobre ela foi efetuado e que traz como consequência que ela passe a existir sob uma outra forma . . . Da hipótese topográfica ele retém a idéia de diferentes localizações psíquicas e da hipótese econômica de que é necessário um trabalho (o que implica considerações energéticas e econômicas), seja para realizar a clivagem, seja para recompô-la numa síntese superior.” (14)
         Monzani acredita que esse artigo metapsicológico é, ao mesmo tempo, uma encruzilhada e uma ponte, por suas contradições e por possibilitar soluções para essas contradições. Freud faz questão de manter a hipótese topográfica onde está presente a idéia de um aparelho psíquico composto basicamente pelo sistema inconsciente – pré-consciente – consciente até 1923, quando escreve O EGO e O ID. Segundo Lacan (15), no seminário, a montagem da Segunda tópica começou com a reformulação da  noção do ego: “O id, vocês sabem, aparece no pensamento freudiano depois de 1920 e, na realidade, nessa Segunda tópica, ele aparece depois das outras instâncias: a Segunda tópica é primeiramente uma modificação do sistema metapsicológico em função das outras instâncias, quer dizer , do ego, do superego, do ideal do ego, que encontram sua origem, mais remotamente, no pensamento freudiano, bem antes de 1920.” (15).
         Para Laplanche, a introdução da noção de id traz 4 possíveis implicações:
1)   uma referencia mais direta ao polo pulsional e através deste, ao nível biológico;
2)   uma opção quanto ao problema das origens, tomando uma orientação marcadamente geneticista em relação aos problemas psicanalíticos;
3)   Acentuar fortemente o fator impessoal daquilo que nos  move;
4)   Uma colocação de ordem na questão do conflito quando emergem as noções de ego, superego e ideal do ego, que são, em grande parte, inconscientes. (16)

No que diz refere a esta orientação biologizante, Freud nos diz em O EGO e O ID: “ os presentes estudos constituem um  novo desenvolvimento de algumas sequências de pensamento que expus em Além do princípio do prazer . . . Nas páginas que se seguem, esses pensamentos são vinculados a diversos fatos da observação analítica e faz-se uma tentativa de chegar a novas  conclusões a partir dessa conjunção. No presente trabalho, contudo, não existe novos empréstimo tomados à biologia e, devido a isso, ele se encontra mais próximos da psicanálise que Além do princípio do prazer. Tem mais a natureza de uma síntese do que ele de uma especulação . . . (17). Este texto mostra que Além do princípio do prazer constitui o pano de fundo através do qual deva ser entendido. E sabemos que este tem uma acentuação nitidamente biologizante. Segundo Monzanio (18), se trata de biologia porque Freud estava fazendo metáforas, não era outra coisa que estava sendo dita. Quando Freud falava sobre dualismo pulsional em termos de pulsão de auto-conservação / pulsões sexuais, a referência ao biológico era longíqua, tratava-se de inscrição no inconsciente. Parece que no texto Freud está formulando hipóteses biológicas, necessárias para  a definição das noções de pulsão de vida e de morte. Ou seja, assumir as hipóteses contidas em Além do princípio do prazer significou, de fato, aos olhos de Freud, assumir de forma ostensiva a hipótese emitida no artigo sobre o inconsciente de que há um caroço nele muito ligado ao biológico. E mais, segundo Monzani, essa orientação biologizante que possibilitou a Freud constituir o conceito de id, que aparece para dar conta desse substrato biológico, seria uma  espécie de inconsciente primitivo, originário a partir do qual certos elementos tentariam irromper e se dirigir no  sentido da ação motora, secundariamente, recalcados. Como Freud o descreve, um caldeirão fervilhante, aberto e seu extremo às influências somáticas, que as recebe e as dirige no sentido da descarga: “catexias pulsionais que procuram a descarga, isso em nossa opinião, é tudo o que existe no id.” (19).
Para André Green, é justamente esse dualismo pulsional que irá engendrar a  Segunda tópica. Eros/Pulsão de Morte. Para ele, o inconsciente esteve ligado até então e uma estrutura positivamente interpretável: “Tende-se precisamente a reconhecer no seio dessas instâncias suas forças cegas, opacas, inacessível à exploração, mais selvagens ainda que as que foram descobertas ao nível do inconsciente, mais rebeldes ainda à domesticação, submetidas a influências obscuras . . .(20).Quer dizer, enquanto o inconsciente e´ o lugar da plena positividade e , portanto, não confere nenhum estatuto de cidadania, nos seus foros, à pulsão de morte, o id, “o caldeirão fervilhante”, abre exatamente essa possibilidade, na medida em que, aqui, o negativo tem sua inscrição assumida: “A diferença maior entre o conceito de inconsciente e o conceito de id reside no fato de que ao nível do primeiro as pulsões de destruição não têm nenhum lugar; ao nível do segundo, não só seu lugar está determinado como o seu papel considerado dominante.” (21)
Para Sulloway no seu livro “Freud, biológico da mente”. Diz: “ tal como ela foi exposta em O ego e o id,  a teoria freudiana estrutural tripartida do psiquismo trouxe muito mais clareza á teoria do dualismo pulsional . . . Nesse esquema tripartido, o id, ou sede do inconsciente, é o foco original das pulsões de vida (Eros) e de morte. Nos limites do id, a pulsão de morte visa a reabsorção da tensão para chegar finalmente a um estado de Nirvana. Eros, ao contrário, não acessa de introduzir novas tensões no id . . .” (22).
Segundo Monzanti nesse texto O Ego e o Id, onde Freud funda a Segunda tópica, o “ser inconsciente” deixa de ter uma acepção sistemática e passa apenas a designar uma qualidade psíquica, e não há o menor esboço de tentativa por parte de Freud, de estabelecer uma ligação mais sólida entre as duas tópicas, na tentativa de entender o que seja “sistema inconsciente”.
Em novas conferências, Freud irá delinear melhor a conceituação do id: “É a parte obscura e inacessível de nossa personalidade.” (23).O que sabemos dele advém do estudo “da elaboração onírica e da formação dos sintomas neuróticos”. Ele é um “caos”, um “caldeirão efervescente de energia”. Está, num de seus extremos, “aberto às influências somáticas e contém em si noções pulsionais que nele encontram expresso psíquica”. Está povoado de energias que lhe chegam das pulsões. É desorganizado e nada nele nos faz pensar em algo como “uma vontade coletiva”.  Sua finalidade é uma só: “satisfazer as moções pulsionais” que estão submetidas irrestritamente ao  princípio do prazer. As leis lógicas não funcionam no seu domínio nem nele está presente a idéia de tempo: impulsos plenos de desejos, quem jamais passaram até do id, e também impressões que foram mergulhadas nele pelo recalcamento, são virtualmente imortais. Não conhece julgamento de valores, está além do bem e do mal, e nele predomina sobretudo o fator econômico, quantitativo: “catexias pulsionais que procuram descarga –isto, em nossa opinião, é tudo que existe no id.” (24).
Podemos entender quem, no artigo metapsicológico o inconsciente era descrito por Freud, como sendo essencialmente  o lugar das representações (representação de coisa, e cabe ao pré-consciente – e consciente a junção de representação de coisas mais representação de palavras). A caracterização do id, por seu lado, acentua flagrantemente esse aspecto energético, quantitativo econômico do id. Nele também existem moções afetivas. “Descrevemos o id como estando aberto no seu extremo, a influências somáticas e como contendo dentro de si necessidades pulsionais que, nele encontram expresso psíquica, não sabemos dizer contudo em que substrato.” (25).
 Freud irá tentar unir as duas tópicas, construir uma relação entre os dois campos, por um lado, inconsciente – pré-inconsciente – inconsciente, e , por outro, as três instâncias, ego, id, superego. Parece que Freud conclui que não há uma relação estrita entre esses dois campos, assim Freud coloca: “ Previamente, não obstante realizemos uma breve interpolação. Penso que os senhores se sentem insatisfeitos porque as três qualidades da consciência e as três regiões do aparelho mental não se agrupam em três pares harmônicos, e os senhores podem considerar esse fato em certo sentido, obscurecedor de nossos achados. Não penso, todavia, que devemos lamentá –lo e sim dizer a nós mesmos que não tínhamos o direito de esperar nenhuma disposição homogênea nessas coisas. Permitam-me mostrar-lhes uma analogia; é verdade que as analogias nada decidem, mas podem fazer a pessoa sentir-se mais à vontade. Estou imaginando uma região com uma paisagem de configuração variada -  montanhas, planícies e cadeias de lagos – e com uma população mista: é habitada por alemães, magiares e eslovacos, que se dedicam a atividades diferentes. Ora, poderiam as coisas estar  repartidas de tal modo que os alemães, criadores de gado, habitam a região montanhosa, os magiares, que plantam cereais e videiras, moram nas planícies, e os eslovacos, que capturam peixes e tecem o junco, vivem junto aos lagos. Se a partilha pudesse ser tão simples e definida, um Woodrow Wilson ficaria satisfeito com isso; mas também seria conveniente tal arranjo para uma conferência numa sala de geografia. Entretanto, seria provável que os senhores encontrassem menos homogeneidade  e mais mistura se viajassem pela região. Alemães, magiares e eslovacos, viviam disseminados por toda parte: na região montanhosa também há terras cultiváveis, e cria-se gado também nas planícies. Algumas coisas, naturalmente , são conforme os senhores esperavam, pois não se pode capturar peixes nas montanhas e os  vinhedos não crescem na água. Realmente,  o quadro da região, que os  senhores se afiguravam, pode, na sua totalidade, ajustar-se aos fatos; os senhores, no entanto, terão de conformar-se com desvio nos detalhes” (26).
Há uma vertente empirista me Freud, em que o biológico tem um papel importante, e é justamente na  busca de uma compreensão do que seja este texto freudiano, que Lacan irá retomá-lo. Freud está em busca de um referente último que dê conta de resolver o sintoma, desfazê-lo. Busca de um nome que remeta a uma coisa. Com o intuito de dar conta do inconsciente freudiano. Lacan buscará recursos no estruturalismo e linguística, via Levi-Strauss e Saussure.
Uma inflexão importante da abordagem saussuriana é o fechamento da língua sobre si mesma. O signo linguístico ume não uma coisa ao seu nome, mas um conceito a uma imagem acústica num vínculo arbitrário que remete a realidade, o referente, para o exterior do campo do estudo a fim de definir a perspectiva, por definição restrita, do linguista. Portanto, o signo saussuriano só envolve, a relação entre significado (o conceito) e significante (imagem acústica), com exclusão do referente. “ A língua é um sistema que só conhece a própria ordem”  (27) – a função referencial é reprimida, a unidade linguística remete sempre para todas as outras numa combinatória puramente endógena. A sua linguística está restrita ao estudo do código, separada de suas condições de aparecimento e de sua significação. É aí que se instaura o enorme programa estruturalista, reagrupando em torno de um mesmo paradigma todas as  ciências do signo. A ciência – piloto  com a força de um método que pode prevalecer-se de resultados.
A principal inflexão será a preponderância atribuída à sincronia, isto é, a  insignificância da historicidade com a metáfora do jogo de xadrez. A inteligência da partida resulta da visão do lugar e das combinações possíveis das peças colocadas no tabuleiro do jogo: É totalmente indiferente que se tenha chegado a ela por um caminho ou outro.” (28). Lacan participa inteiramente do  paradigma estruturalista, esvaziando ainda mais radicalmente o referente, relegando para um lugar secundário o significado que experimenta a cadeia significante num movimento em que ele introduz “a noção de deslizamento incessante do significado sob o significante.” (29). O sujeito encontra-se descentralizado, efeito do  significante que remete ele próprio para um outro significante, é o produto da linguagem que fala nele. O inconsciente torna-se, portanto, efeito de linguagem, de suas regras, de seu código. Este sujeito é de certa forma uma ficção que só tem sentido, ou existência em virtude de sua dimensão simbólica. “É o deslocamento do significante que determina os sujeitos em seus atos, em seu destino, em sua recusa, em suas cegueiras.” (30). Para  Lacan, os símbolos são mais reais do que o que eles simbolizam, o significante precede e determina o significado.
O desejo do sujeito já nada tem de orgânico em Lacan, está desligado de toda realidade fisiológica da mesma maneira que o signo linguístico encontra-se cortado de todo o referente. O signficante irá ocupar o lugar de sujeito. Cuja existência se dá como causa ausente para seus efeitos, a saber, a cadeia significante pela qual ele se torna inteligível. O sujeito não é reduzido a nada, mas aos status de não-ser;  é o fundamento não-significante da significância dos significantes, ou seja, a sua própria condição de existência. O trabalho do analista baseia-se, pois, na restituição, da lógica interna a essa cadeia significante, da qual nenhum elemento é capaz em si  mesmo de representar um tempo de significação. O  significante é então um sujeito para um sujeito para um outro significante e só cumpre, portanto, a sua função ao retirar-se constantemente para dar lugar a um novo significante.
A retomada do  signo saussuriano por Lacan, forçando-o no sentido de esvaziamento do significado ou, em todo caso, de sua atenuação em  proveito do significante significa que: “Tal como a linguagem, o social, é uma realidade autônoma ( a mesma, aliás); os símbolos são mais reais do que o que eles simbolizam, o significante precede e determina o significado.” (31). É aí que se consolida o projeto globalizante para o conjunto das ciências do homem, convocadas com vistas à uma realização de um vasto programa semiológico. Para além do horizonte interdisciplinar que aí é definido por Lévis-Strauss, este enuncia uma tese canônica do estruturalismo ao afirmar que o código precede a mensagem, que é independente dela, e que o sujeito está submetido á lei do significante. É nesse nível que se encontra o núcleo estrutural da abordagem: “ A definição de um código é ser traduzível num outro código: a essa propriedade que o define dá-se o nome de estrutura.” (32).
Para concluir, em Freud, o inconsciente não tem uma natureza linguística, mas sim, é de natureza econômica, libidinal, dinâmica e topográfica. As representações de palavras não fazem parte do inconsciente, o que é justamente a  constituição do inconsciente para Lacan.
NOTAS

1)   FREUD – XIX, 29 30, XIII, 244
2)   FREUD – XXII, 88 – 9, XV, 75
3)   FREUD – XIV, 191 ss; X, 246 ss
4)   FREUD – XIV, 203 X – 275 – 6 TRAB. DE LAPIANCHE E PONTALIS EM “METAPSYCHOLOGIE”, PARIS, GALLIMARD, IDEÉS, 1978, p. ss
5)   FREUD – XIV, 203, X – 276
6)   FREUD – XIV, 203, X – 276
7)   FREUD – XIV, 203 – 4; X – 276
8)   FREUD – XIX, 30; XIII, 244 – 5
9)   FREUD – XIV, 233; X – 294
10)        FREUD – XIX – 217 – 8; 395 – 6
11)        FREUD – XIV, 299 – 30; X – 300
12)        FREUD – XIV, 231; X – 301
13)        FREUD – XIX, 33 – XIII, 247
14)        MONZANI, p. 262
15)        LAGAN, SEMINÁRIO I, p. 21
16)        LAPIANCHE, PROBLEMÁTIQUES IV, p. 81
17)        FREUD – XIX, 23; XIII, 237
18)        MONZANI, pg. 266
[1] FREUD, 1923. v.19,p.29-30.

[2] FREUD, 1932-1933. v.22, p.88-89.
[3] FREUD, 1915. v .14, p. 203.
[4] FREUD, 1915. v.14, p.203.
[5] FREUD, 1915. v.14, p.203-204.
[6] FREUD, 1923. v. 19, p.30.
[7] FREUD, 1912-1913. v.13, p. 244-245.
[8] FREUD, 1923. v.19, p. 217-218, p. 395-396.
[9] MONZANI,MOVIMENTO DE UM PENSAMENTO

No hay comentarios:

Publicar un comentario