FREUD
NIETZSCHE
JUNG
NIETZSCHE
JUNG
SOBRE A PRETENSA NATUREZA LINGUÍSTICA DO
INCONSCIENTE
Na primeira tópica. O inconsciente era assimilado aquilo que no conflito era repudiado. Isto é, o polo pulsional recalcado. O que implicava reconhecer inconsciente e recalque, por um lado, e de outro, a instância recalcadora, no sistema pré-consciente-consciente. Esse é um dos pontos em que Freud insistiu em O EGO E O ID para justificar a introdução da Segunda tópica. Por volta de 1920 Freud irá assumir que a defesa é também inconsciente:
“Entretanto, visto não poder
haver dúvida de que essa resistência emana do seu ego e a este pertence,
encontramo-nos numa situação imprevista. Deparamo-nos com algo no próprio ego
que é também inconsciente, que se comporta exatamente como recalcado – isto é,
que produz efeitos poderosos sem ele próprio ser consciente e que exige um trabalho especial
antes de poder tornar se consciente. Do ponto de vista da prática analítica,
a consequência dessa descoberta é que
iremos parar em infindáveis obscuridades e dificuldades se nos ativermos a nossas formas habituais de expressão e
tentarmos, por exemplo, derivar as neuroses de um conflito entre o consciente e
o inconsciente[1].
Nas novas
conferências . . ., o argumento aparece da seguinte forma:
“Há muito deveríamos ter feito
a pergunta: de que parte de sua mente
(do paciente) surge uma resistência inconsciente de tal ordem? O principiante em psicanálise
está pronto a responder, de imediato: é naturalmente a resistência do inconsciente.
Resposta ambígua e inútil! Se significa que a resistência surge do
recalcado, devemos acrescentar: certamente não! . . . A resistência só pode ser
manifestação do ego que originalmente forçou o recalque e agora deseja
mantê-lo. Ademais, essa é a opinião que sempre tivemos. Se, pois, na análise
nos deparamos com o caso de a resistência não deve ser consciente para o
paciente, isto significa que , em situações muito importantes , o superego e o
ego podem operar inconscientemente ou que – e isto seria ainda mais importante
– parte de ambos, do ego e do superego,
são inconscientes. Nos dois casos temos de contar com a desagradável descoberta
de que, por um lado, o superego e o consciente e, por outro lado, o recalcado e o inconsciente
não são de modo algum coincidentes[2].”
Freud nos
diz que essa questão de se saber a cerca do inconsciente não se confunde com o
“sistema” inconsciente da forma como é descrito na primeira tópica, como o
lugar, por excelência, do recalcado. Há muitos modos de funcionamento do
aparelho psíquico, como se defender, escamotear, recalcar, isolar, mecanismo
provenientes do ego, e sujeito não tem
consciência desses por serem inconscientes. Portanto, o ego também tem partes
inconscientes que não se confundem com o sistema inconsciente, tal como é
conceituado na primeira tópica.
No
artigo de 1915, O INCONSCIENTE, o qual representa o ponto culminante da
primeira tópica do aparelho psíquico, a teoria topográfica, Freud tenta forjar
uma representação coerente dos conteúdos e do modo de funcionamento do
inconsciente. Neste texto, Freud tende a
identificar componentes básicos do inconsciente com as representações, tomando
esse termo na sua acepção mais larga possível.
O inconsciente é habitado por traços mnésicos, fragmento desses traços,
imagens, ou a combinação delas tendendo a formar uma “cena”, o fantasma
inconsciente. Freud viu-se obrigado a pensar no estatuto das pulsões, pois até
1915 ele fora um pouco vago com relação a esse tema. A pulsão é de origem
incontestavelmente orgânica, e neste texto Freud coloca o problema da inscrição
psíquica das moções pulsionais. A pulsão enquanto tal é e nos será sempre
desconhecida. O que aparece no plano psíquico é um seu representante, um seu
delegado. O texto central de Freud no início da sessão III do artigo é o
seguinte:
“ De fato, penso que a oposição entre
consciente e inconsciente não se aplica à pulsão. Uma pulsão não pode nunca
tornar-se objeto da consciência, só o pode através de representação que a
represente. Além disso, no inconsciente também, a pulsão pode ser representada
senão pela representação .Se a pulsão não estivesse ligada a uma representação
ou não aparecesse sob a forma de afeto,
nada poderíamos saber. Mas, se falamos, no entanto, de uma moção pulsional
recalcada, trata-se de uma negligência de expressão sem consequência de
expressão sem consequência. Não podemos entender outra coisa senão uma
noção pulsional da qual o representante-representação é inconsciente[3]
. . .”
E a respeito dos sentimentos,
emoções, seriam eles inconscientes? Freud usa a expressão como “sentimento
inconsciente de culpa”, mas Freud[4]
avisa é da essenciaa do
sentimento ser percebido, ser conhecido pela consciência”.
Nesse caso, é claro que
“para os sentimentos, as sensações, os afetos, a possibilidade de ser
inconsciente desaparece completamente.. Freud
sustenta a tese fundamental da independência entre o afeto e representação. O
que é recalcado e portanto passa a
existir no regime do inconsciente é a
representação á qual esse fato está originalmente ligado. Processado o
recalque, o afeto se encontra livre e frequentemente se desestrutura em
angústia.
“Com seu representante próprio (do afeto) tendo sido recalcado, ela ( a moção de afeto) foi coagida a se ligar a
uma outra representação e é agora tida pela consciência como a manifestação
desta última. Quando restabelecemos a conexão exata, chamamos de inconsciente a
moção de afeto originária, se bem que seu afeto não foi nunca inconsciente e só
a representação sucumbiu ao recalque.” [5]
Esta mesma representação será retomada
por Freud no cap II de O EGO E O ID.
Vemos,
portanto, que o inconsciente é composto por representações que subdividiram em
2 grupos: representações pulsionais e representações daquilo que é enviado para
o inconsciente através do processo do
recalque.
“Reconhecemos que o inconsciente não coincide com o recalcado; é ainda
verdade que tudo o que é recalcado é inconsciente, mas nem tudo o que é
inconsciente é recalcado . . . Quando nós vemos assim confrontados pela
necessidade de postular um terceiro inconsciente, que não é recalcado, temos
que admitir que a característica de ser inconsciente começa a perder
significação para nós.”[6]
Freud
traz também a hipótese de que o inconsciente teria como componentes certas
estruturas gerais e herdadas em TOTEM E TABU. Essa idéia de que existem certos
mecanismos, certos esquemas de estruturação do psíquico pré-formados e
hereditários conduzem, evidentemente, a uma concepção de inconsciente que
ultrapassa em larga escala um inconsciente formado sobretudo de representações.
No capítulo VI de TOTEM E TABU. Freud irá tratar do que seria o Núcleo do
inconsciente:
“Pode-se comparar o conteúdo do inconsciente a isso que seia, no domínio
psíquico, uma população aborígene. Se existem no homem formações psíquicas
herdadas, alguma coisa de análogo ao instinto dos animais, elas constituem o núcleo do inconsciente. Depois junta
se a elas o que foi eliminado no curso
do desenvolvimento da criança como
inutilizável e que não precisa ser de uma outra natureza que aquilo que
é herdado. Não é senão no momento da puberdade que se instala, geralmente, uma
separação nítida e definitiva do conteúdo dos dois sistemas.”[7]
Vemos neste texto a palavra INSTINKT, ou
seja, uma faceta de caráter nitidamente biológica e por outro lado, a
identificação do inconsciente com a teia
das representações recalcadas, abordaremos a questão biológica do inconsciente
mais adiante. No artigo, A Dissolução do Complexo de Édipo [8]
também aparece a idéia de que a ontogênese repete a filogênese
no campo psíquico, é uma constante em Freud, que, neste ponto, é um bom
herdeiro do século XX, parafraseando Monzani.
Segundo Monzani[9]
os principais problemas da teoria, como: a dinâmica do conflito neurótico e a
diferença entre ser inconsciente e pertencer ao sistema inconsciente: os modos
de funcionamento do inconsciente: a remodelação da noção de ego e a composição
do inconsciente, os quais apontam claramente a insuficiência da primeira tópica
e direcionam já para a Segunda tópica já são conhecidas de Freud há longos
tempo. Monzani diz que, até 1915,
aproximadamente, o discurso freudiano se vê frente a duas coisas que não
parecem muito conciliáveis entre si: 1) a existência de uma topologia psíquica,
que parece acarretar necessariamente a idéia de sistema (pré-consciente,
consciente, inconsciente) em função da questão do estatuto da representação e
2) as contradições pelas quais a topologia
anímica faz com que essa concepção envedece . . . Duas hipóteses de
solução quanto ao estatuto da representação tinham se apresentado a Freud:
aquele que conhecemos como a topologia e outra de ordem econômica. É na sessão
VII do artigo sobre O inconsciente que Freud irá propor uma terceira solução,
no qual foi o texto sobre a afasia que
foi o inspirador dessa nova solução [ o trecho principal contido no estudo
sobre a afasia, e que é pertinente para a distinção operada por Freud nesta sessão
VII, está reproduzido no apêndice do artigo sobre o inconsciente] onde Freud
isola o conceito de narcisismo e a abordagem das psicoses. A análise da
esquizofrenia leva Freud a postular uma
distinção entre “representação de coisa e representação de palavras”. Assim
demonstra Freud: “Vemos agora que aquela que denominamos a representação de
objetos consciente pode se cindir em representação de palavras e representação de palavras”. Assim demonstra
Freud: “Vemos agora que aquela que denominamos a representação de objeto
consciente pode se cindir em representação de palavra e representação de
coisas. Esta última consiste no investimento senão de imagens mnésicas diretas
de coisas, ao menos de traços mnésicos mais distantes e que derivam delas.
Agora parece que sabemos de imediato em
que uma representação consciente se distingue de uma representação
inconsciente: a representação consciente compreende a representação de coisa mais a representação
de palavra que lhe pertence; a representação inconsciente é somente
representação de coisa.” (11)
“Como podemos ver, estar
ligado a representações de palavra ainda não é a mesma coisa que tornar-se
consciente, mas limita-se a possibilitar que isto aconteça; é portanto algo
característico do sistema pré-consciente, e somente desse sistema.” (12)
No cap. II de O EGO E O ID,
Freud assim coloca: “ Em outro lugar (Freud refere-se ao artigo sobre o
inconsciente), já sugeri que a diferença real entre uma representação
(pensamento) do inconsciente ou do pré-consciente consiste nisto: que a primeira é efetuada em algum material que
permanece desconhecido, enquanto que a última ( a pré-consciente) é além disso,
colocada em vinculação com as representações verbais. Esta é a primeira tentativa de indicar marcas
distintas entre os dois sistemas, o pré-consciente e o inconsciente, além de
sua relação com a consciente.”(13)
Freud resolve portanto, o
problema de estatuto da representação, sem abandonar a hipótese topográfica e a
econômica. “Uma representação é inconsciente porque está ou foi deslocada não
para um determinado lugar; é o resultado de
um trabalho que sobre ela foi efetuado e que traz como consequência que
ela passe a existir sob uma outra forma . . . Da hipótese topográfica ele retém
a idéia de diferentes localizações psíquicas e da hipótese econômica de que é
necessário um trabalho (o que implica considerações energéticas e econômicas),
seja para realizar a clivagem, seja para recompô-la numa síntese superior.”
(14)
Monzani acredita que esse
artigo metapsicológico é, ao mesmo tempo, uma encruzilhada e uma ponte, por
suas contradições e por possibilitar soluções para essas contradições. Freud
faz questão de manter a hipótese topográfica onde está presente a idéia de um
aparelho psíquico composto basicamente pelo sistema inconsciente –
pré-consciente – consciente até 1923, quando escreve O EGO e O ID. Segundo
Lacan (15), no seminário, a montagem da Segunda tópica começou com a
reformulação da noção do ego: “O id,
vocês sabem, aparece no pensamento freudiano depois de 1920 e, na realidade,
nessa Segunda tópica, ele aparece depois das outras instâncias: a Segunda
tópica é primeiramente uma modificação do sistema metapsicológico em função das
outras instâncias, quer dizer , do ego, do superego, do ideal do ego, que
encontram sua origem, mais remotamente, no pensamento freudiano, bem antes de
1920.” (15).
Para Laplanche, a introdução
da noção de id traz 4 possíveis implicações:
1)
uma referencia
mais direta ao polo pulsional e através deste, ao nível biológico;
2)
uma opção
quanto ao problema das origens, tomando uma orientação marcadamente geneticista
em relação aos problemas psicanalíticos;
3)
Acentuar
fortemente o fator impessoal daquilo que nos
move;
4)
Uma colocação
de ordem na questão do conflito quando emergem as noções de ego, superego e
ideal do ego, que são, em grande parte, inconscientes. (16)
No que diz refere a esta orientação
biologizante, Freud nos diz em O EGO e O ID: “ os presentes estudos constituem
um novo desenvolvimento de algumas
sequências de pensamento que expus em Além do princípio do prazer . . . Nas
páginas que se seguem, esses pensamentos são vinculados a diversos fatos da
observação analítica e faz-se uma tentativa de chegar a novas conclusões a partir dessa conjunção. No
presente trabalho, contudo, não existe novos empréstimo tomados à biologia e,
devido a isso, ele se encontra mais próximos da psicanálise que Além do
princípio do prazer. Tem mais a natureza de uma síntese do que ele de uma
especulação . . . (17). Este texto mostra que Além do princípio do prazer
constitui o pano de fundo através do qual deva ser entendido. E sabemos que
este tem uma acentuação nitidamente biologizante. Segundo Monzanio (18), se
trata de biologia porque Freud estava fazendo metáforas, não era outra coisa
que estava sendo dita. Quando Freud falava sobre dualismo pulsional em termos
de pulsão de auto-conservação / pulsões sexuais, a referência ao biológico era
longíqua, tratava-se de inscrição no inconsciente. Parece que no texto Freud
está formulando hipóteses biológicas, necessárias para a definição das noções de pulsão de vida e de
morte. Ou seja, assumir as hipóteses contidas em Além do princípio do prazer
significou, de fato, aos olhos de Freud, assumir de forma ostensiva a hipótese
emitida no artigo sobre o inconsciente de que há um caroço nele muito ligado ao
biológico. E mais, segundo Monzani, essa orientação biologizante que
possibilitou a Freud constituir o conceito de id, que aparece para dar conta
desse substrato biológico, seria uma
espécie de inconsciente primitivo, originário a partir do qual certos
elementos tentariam irromper e se dirigir no
sentido da ação motora, secundariamente, recalcados. Como Freud o
descreve, um caldeirão fervilhante, aberto e seu extremo às influências
somáticas, que as recebe e as dirige no sentido da descarga: “catexias
pulsionais que procuram a descarga, isso em nossa opinião, é tudo o que existe
no id.” (19).
Para André Green, é justamente esse
dualismo pulsional que irá engendrar a
Segunda tópica. Eros/Pulsão de Morte. Para ele, o inconsciente esteve
ligado até então e uma estrutura positivamente interpretável: “Tende-se
precisamente a reconhecer no seio dessas instâncias suas forças cegas, opacas,
inacessível à exploração, mais selvagens ainda que as que foram descobertas ao
nível do inconsciente, mais rebeldes ainda à domesticação, submetidas a
influências obscuras . . .(20).Quer dizer, enquanto o inconsciente e´ o lugar
da plena positividade e , portanto, não confere nenhum estatuto de cidadania,
nos seus foros, à pulsão de morte, o id, “o caldeirão fervilhante”, abre
exatamente essa possibilidade, na medida em que, aqui, o negativo tem sua
inscrição assumida: “A diferença maior entre o conceito de inconsciente e o
conceito de id reside no fato de que ao nível do primeiro as pulsões de
destruição não têm nenhum lugar; ao nível do segundo, não só seu lugar está
determinado como o seu papel considerado dominante.” (21)
Para Sulloway no seu livro “Freud,
biológico da mente”. Diz: “ tal como ela foi exposta em O ego e o id, a teoria freudiana estrutural tripartida do psiquismo
trouxe muito mais clareza á teoria do dualismo pulsional . . . Nesse esquema
tripartido, o id, ou sede do inconsciente, é o foco original das pulsões de
vida (Eros) e de morte. Nos limites do id, a pulsão de morte visa a reabsorção
da tensão para chegar finalmente a um estado de Nirvana. Eros, ao contrário,
não acessa de introduzir novas tensões no id . . .” (22).
Segundo Monzanti nesse texto O Ego e o
Id, onde Freud funda a Segunda tópica, o “ser inconsciente” deixa de ter uma
acepção sistemática e passa apenas a designar uma qualidade psíquica, e não há
o menor esboço de tentativa por parte de Freud, de estabelecer uma ligação mais
sólida entre as duas tópicas, na tentativa de entender o que seja “sistema
inconsciente”.
Em novas conferências, Freud irá
delinear melhor a conceituação do id: “É a parte obscura e inacessível de nossa
personalidade.” (23).O que sabemos dele advém do estudo “da elaboração onírica
e da formação dos sintomas neuróticos”. Ele é um “caos”, um “caldeirão
efervescente de energia”. Está, num de seus extremos, “aberto às influências
somáticas e contém em si noções pulsionais que nele encontram expresso
psíquica”. Está povoado de energias que lhe chegam das pulsões. É desorganizado
e nada nele nos faz pensar em algo como “uma vontade coletiva”. Sua finalidade é uma só: “satisfazer as
moções pulsionais” que estão submetidas irrestritamente ao princípio do prazer. As leis lógicas não
funcionam no seu domínio nem nele está presente a idéia de tempo: impulsos
plenos de desejos, quem jamais passaram até do id, e também impressões que
foram mergulhadas nele pelo recalcamento, são virtualmente imortais. Não conhece julgamento de valores, está além do bem e do
mal, e nele predomina sobretudo o fator econômico, quantitativo: “catexias pulsionais
que procuram descarga –isto, em nossa opinião, é tudo que existe no id.” (24).
Podemos entender quem, no artigo
metapsicológico o inconsciente era descrito por Freud, como sendo
essencialmente o lugar das
representações (representação de coisa, e cabe ao pré-consciente – e consciente
a junção de representação de coisas mais representação de palavras). A
caracterização do id, por seu lado, acentua flagrantemente esse aspecto
energético, quantitativo econômico do id. Nele também existem moções afetivas.
“Descrevemos o id como estando aberto no seu extremo, a influências somáticas e
como contendo dentro de si necessidades pulsionais que, nele encontram expresso
psíquica, não sabemos dizer contudo em que substrato.” (25).
Freud irá tentar unir as duas tópicas,
construir uma relação entre os dois campos, por um lado, inconsciente –
pré-inconsciente – inconsciente, e , por outro, as três instâncias, ego, id,
superego. Parece que Freud conclui que não há uma relação estrita entre esses
dois campos, assim Freud coloca: “ Previamente, não obstante realizemos uma
breve interpolação. Penso que os senhores se sentem insatisfeitos porque as
três qualidades da consciência e as três regiões do aparelho mental não se
agrupam em três pares harmônicos, e os senhores podem considerar esse fato em
certo sentido, obscurecedor de nossos achados. Não penso, todavia, que devemos
lamentá –lo e sim dizer a nós mesmos que não tínhamos o direito de esperar
nenhuma disposição homogênea nessas coisas. Permitam-me mostrar-lhes uma analogia;
é verdade que as analogias nada decidem, mas podem fazer a pessoa sentir-se
mais à vontade. Estou imaginando uma região com uma paisagem de configuração
variada - montanhas, planícies e cadeias
de lagos – e com uma população mista: é habitada por alemães, magiares e
eslovacos, que se dedicam a atividades diferentes. Ora, poderiam as coisas
estar repartidas de tal modo que os
alemães, criadores de gado, habitam a região montanhosa, os magiares, que
plantam cereais e videiras, moram nas planícies, e os eslovacos, que capturam
peixes e tecem o junco, vivem junto aos lagos. Se a partilha pudesse ser tão
simples e definida, um Woodrow Wilson ficaria satisfeito com isso; mas também
seria conveniente tal arranjo para uma conferência numa sala de geografia.
Entretanto, seria provável que os senhores encontrassem menos
homogeneidade e mais mistura se
viajassem pela região. Alemães, magiares e eslovacos, viviam disseminados por
toda parte: na região montanhosa também há terras cultiváveis, e cria-se gado também
nas planícies. Algumas coisas, naturalmente , são conforme os senhores
esperavam, pois não se pode capturar peixes nas montanhas e os vinhedos não crescem na água. Realmente, o quadro da região, que os senhores se afiguravam, pode, na sua totalidade,
ajustar-se aos fatos; os senhores, no entanto, terão de conformar-se com desvio
nos detalhes” (26).
Há uma vertente empirista me Freud, em
que o biológico tem um papel importante, e é justamente na busca de uma compreensão do que seja este
texto freudiano, que Lacan irá retomá-lo. Freud está em busca de um referente
último que dê conta de resolver o sintoma, desfazê-lo. Busca de um nome que
remeta a uma coisa. Com o intuito de dar conta do inconsciente freudiano. Lacan
buscará recursos no estruturalismo e linguística, via Levi-Strauss e Saussure.
Uma inflexão importante da abordagem saussuriana é o
fechamento da língua sobre si mesma. O signo linguístico ume não uma coisa ao
seu nome, mas um conceito a uma imagem acústica num vínculo arbitrário que remete
a realidade, o referente, para o exterior do campo do estudo a fim de definir a
perspectiva, por definição restrita, do linguista. Portanto, o signo
saussuriano só envolve, a relação entre significado (o conceito) e significante
(imagem acústica), com exclusão do referente. “ A língua é um sistema que só
conhece a própria ordem” (27) – a função
referencial é reprimida, a unidade linguística remete sempre para todas as
outras numa combinatória puramente endógena. A sua linguística está restrita ao
estudo do código, separada de suas condições de aparecimento e de sua
significação. É aí que se instaura o enorme programa estruturalista,
reagrupando em torno de um mesmo paradigma todas as ciências do signo. A ciência – piloto com a força de um método que pode
prevalecer-se de resultados.
A principal inflexão será a
preponderância atribuída à sincronia, isto é, a
insignificância da historicidade com a metáfora do jogo de xadrez. A
inteligência da partida resulta da visão do lugar e das combinações possíveis das
peças colocadas no tabuleiro do jogo: É totalmente indiferente que se tenha
chegado a ela por um caminho ou outro.” (28). Lacan participa inteiramente
do paradigma estruturalista, esvaziando
ainda mais radicalmente o referente, relegando para um lugar secundário o
significado que experimenta a cadeia significante num movimento em que ele
introduz “a noção de deslizamento incessante do significado sob o
significante.” (29). O sujeito encontra-se descentralizado, efeito do significante que remete ele próprio para um
outro significante, é o produto da linguagem que fala nele. O inconsciente
torna-se, portanto, efeito de linguagem, de suas regras, de seu código. Este
sujeito é de certa forma uma ficção que só tem sentido, ou existência em
virtude de sua dimensão simbólica. “É o deslocamento do significante que
determina os sujeitos em seus atos, em seu destino, em sua recusa, em suas
cegueiras.” (30). Para Lacan, os
símbolos são mais reais do que o que eles simbolizam, o significante precede e
determina o significado.
O desejo do sujeito já nada tem de orgânico em Lacan, está
desligado de toda realidade fisiológica da mesma maneira que o signo
linguístico encontra-se cortado de todo o referente. O signficante irá ocupar o
lugar de sujeito. Cuja existência se dá como causa ausente para seus efeitos, a
saber, a cadeia significante pela qual ele se torna inteligível. O sujeito não
é reduzido a nada, mas aos status de não-ser;
é o fundamento não-significante da significância dos significantes, ou
seja, a sua própria condição de existência. O trabalho do analista baseia-se,
pois, na restituição, da lógica interna a essa cadeia significante, da qual
nenhum elemento é capaz em si mesmo de
representar um tempo de significação. O
significante é então um sujeito para um sujeito para um outro
significante e só cumpre, portanto, a sua função ao retirar-se constantemente
para dar lugar a um novo significante.
A retomada do signo saussuriano por Lacan, forçando-o no
sentido de esvaziamento do significado ou, em todo caso, de sua atenuação
em proveito do significante significa
que: “Tal como a linguagem, o social, é uma realidade autônoma ( a mesma,
aliás); os símbolos são mais reais do que o que eles simbolizam, o significante
precede e determina o significado.” (31). É aí que se consolida o projeto
globalizante para o conjunto das ciências do homem, convocadas com vistas à uma
realização de um vasto programa semiológico. Para além do horizonte
interdisciplinar que aí é definido por Lévis-Strauss, este enuncia uma tese canônica
do estruturalismo ao afirmar que o código precede a mensagem, que é
independente dela, e que o sujeito está submetido á lei do significante. É
nesse nível que se encontra o núcleo estrutural da abordagem: “ A definição de
um código é ser traduzível num outro código: a essa propriedade que o define
dá-se o nome de estrutura.” (32).
Para concluir, em Freud, o inconsciente
não tem uma natureza linguística, mas sim, é de natureza econômica, libidinal,
dinâmica e topográfica. As representações de palavras não fazem parte do
inconsciente, o que é justamente a
constituição do inconsciente para Lacan.
NOTAS
1)
FREUD – XIX,
29 30, XIII, 244
2)
FREUD – XXII,
88 – 9, XV, 75
3)
FREUD – XIV,
191 ss; X, 246 ss
4)
FREUD – XIV,
203 X – 275 – 6 TRAB. DE LAPIANCHE E PONTALIS EM “METAPSYCHOLOGIE”, PARIS,
GALLIMARD, IDEÉS, 1978, p. ss
5)
FREUD – XIV,
203, X – 276
6)
FREUD – XIV,
203, X – 276
7)
FREUD – XIV,
203 – 4; X – 276
8)
FREUD – XIX,
30; XIII, 244 – 5
9)
FREUD – XIV,
233; X – 294
10)
FREUD – XIX –
217 – 8; 395 – 6
11)
FREUD – XIV, 299
– 30; X – 300
12)
FREUD – XIV,
231; X – 301
13)
FREUD – XIX,
33 – XIII, 247
14)
MONZANI, p.
262
15)
LAGAN,
SEMINÁRIO I, p. 21
16)
LAPIANCHE,
PROBLEMÁTIQUES IV, p. 81
17)
FREUD – XIX,
23; XIII, 237
18)
MONZANI, pg.
266
[1] FREUD,
1923. v.19,p.29-30.
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