domingo, 9 de octubre de 2016

Pensando a vida

Pensando a vida

Venho há muito tempo com uma inquietude estranha ao pensar a vida de tantas crianças às quais tenho acompanhado em seus momentos de desorganização, tristeza, fugas, dores físicas, psíquicas, afetivas, num tormento de silêncios, fragilidades, gritos silenciados de dor. Crianças  com dificuldades de compreender o seu lugar diante da estrutura desejante dos pais, que não sabem como satisfazer enormes expectativas projetadas sobre suas pessoas, expectativas econômicas, ao terem que dar conta de preservar e continuar a acumulação de riquezas e de um status quo; expectativas idealizantes narcisistas e afetivas, no sentido de terem que realizar antigos projetos não realizados dos pais, projetos  muitas vezes impossíveis de serem realizados. Crianças que muitas vezes ocupam o lugar desse sintoma familiar e desenvolvem um sentimento de fracasso em relação a si mesmas por não conseguirem realizar o desejo de um outro. Quanto sofrimento encontrado nessas andanças da vida ... Vida ! É preciso repensá-la, nem que para isso eu tenha que usar o meu corpo e  a minha  alma como lenha dessa enorme fogueira, como nos diz Fernando Pessoa.
Qual seria o lugar desse pai na estrutura desejante da criança e de nós adultos?  Será que esse pai enquanto paternidade já foi construído?????  Ou será que o pai que encontramos é o proprietário dos bens, da mulher, dos “filhos da mulher” e da terra.
   Por que pensar na falta do pai enquanto falta concreta? Porque a maioria das crianças que chegam até mim  com angústia, com distúrbios de comportamento ,dificuldades de aprendizagem ,de sono, transtornos de ansiedade, obsessivos,fóbicos,  em sua maioria não têm pai,  ou são filhos de pais separados, ou não têm um vínculo  afetivo com o mesmo. A questão que se coloca é o que se passa com essas crianças, em seu mundo afetivo, pulsional desejante?
   Freud irá tentar responder à questão da origem do inconsciente, dos fantasmas individuais e coletivos, nos fornecendo uma explicação mítica  através da criação do mito da horda primeva , mito fundador da sociedade e das regras que a regulam. Momento inaugural da queda do pai devido ao seu assassinato pelos filhos. Esse mito é importante neste trabalho pois irá tratar da questão do pai como organizador social e fundador de uma lei reguladora das relações entre a família e a sociedade. Às vezes Freud dá uma explicação estrutural e outras, biológica ou social, quando nos diz que o que funda o inconsciente seriam as instituições sociais, como  a igreja, o estado e o exército.  

   Lacan irá postular que há um organizador das relações sociais, do psiquismo, o qual ele deu o nome de NOME-DO-PAI – uma lei que está acima de nós e que nos antecede e nos determina.
   O que falta à estas crianças? Seria uma lei interditora do desejo incestuoso? Seria uma imagem, e a falta dessa imagem oferecida à criança como objeto a ser admirado e por isso mesmo desejado como objeto a ser identificado? , imagem que também possibilita trocas afetivas, sociais, libidinais com a criança. O pai na relação com o filho estabelece a reciprocidade desejante, transmite ao filho o seu valor narcísico, a sua capacidade de amar e ser amado, de ser reconhecido como sujeito desejável e desejante,  e o mais importante é que o pai o reconhece como filho por um desejo de dar continuidade a uma história pessoal geracional infinita... Continuidade através do filho de sua própria história, muitas vezes para dar um sentido à sua própria existência, sentido de tornar-se imortal através das gerações, ver-se repetido nos filhos, netos, bisnetos, tataranetos, poder reparar os erros cometidos pelas gerações passadas. De seu próprio pai, juntamente com as culpas vividas pelo seu ser criança, seus traumas, e poder através dos filhos elaborar os traumas, culpas, temores e impotências próprias. Ter  filho para poder reparar o machismo, os desejos invejosos, destrutivos já que  acredito que a criança está no mundo como o grande mestre, aquela que nos ensina a esperar longamente um futuro, nos ensina a viver com alegria e entusiasmo, nos ensina a dividir e partilhar o tempo, o espaço, o amor, o trabalho, a vida com o outro. Mas esse pai falta, nada quer saber desse filho, o ignora, o rejeita, o maltrata, o marginaliza, o ofende, o violenta, o ignora e aí vem a enorme pergunta angustiógena: O que me falta para que o meu pai nada quer saber de mim? A criança atribui a alguma maldade própria  a negligência paterna... Torna-se muito difícil chegar a crueza de uma resposta que violenta o eu de qualquer pessoa: Sou um dejeto, ou nada sou para esse outro, sou a indiferença, sou o nada. Serei pior que outras crianças?  Sou feia, deformada?
    Questões que remetem ao ser desejante, ser estético, ser ético – o bem e o mal, o justo-injusto,o verdadeiro-falso, serei digno, suficientemente bom para merecer esse reconhecimento e amor paterno? ; Ser existencial – deveria eu ter nascido? E se fosse em outro dia, teria sido diferente? O que será que aconteceu no dia em que nasci? Meu pai fugiu? Ou saiu correndo de mim? Meu pai morreu? Ou ele tem outra família? Ele ama os outros filhos? Por que não eu?
   São muitas histórias para contar e chorar e também rir depois que a criança compreende que há dentro de cada um de nós a capacidade para o amor... Há os pais assassinados pela mãe simbolicamente, pais “falecidos”sem estarem mortos na realidade, mães revoltadas com fortes sentimentos de abandono , desprezo e que transmitem à criança a sua menos valia, o seu amargor e como só resta à criança presença e apoio materno, só lhe resta se identificar com estes sentimentos, formando um duplo com a mãe, para que não corra mais um risco de perder  a única pessoa que lhe resta. Mães que questionam a sua própria existência, se faz sentido continuarem vivendo sem o amor desse marido que lhes deu uma criança e desapareceu... Questionam o valor de desejabilidade...
   Além dessas crianças sofrerem conscientemente, inconscientemente, ainda têm que enfrentar o preconceito social –filhos sem pai – têm que dar conta da demanda dos outros : Você não tem pai? Mas “ele não te desejou, não quis saber de você? “
   Com essa avalanche de sentimentos vão surgindo um número infinito de tentativas de poder levar a vida adiante com o menor sofrimento possível. Aparecem as vinganças contra esse desafeto – que é projetado nos outros, outros que se tornam  perseguidores, as vezes sádicos, malvados, desejosos do próprio sofrimento da criança. Outras vezes aparecem comportamentos masoquistas como tentativa de expiar a culpa por algum dano causado ao pai seja na fantasia ou na realidade.
   Muitas vezes me coloco como advogada de defesa dessas crianças e tento devolver a elas a força que lhes escapou ou foi violentada... A sua auto defesa para lidar com um mundo hostil, enganador, mentiroso, falso , omisso, perverso. O mundo que é o de muitas crianças que chegam até mim. Se este mundo não é real, a criança o imagina, o fantasia, o cria na tentativa de encontrar uma explicação para a falta desse pai -fantasma, que pode ter um sentido concreto, imaginário ou simbólico. A mãe muitas vezes impede que esse pai se faça presente na vida dos filhos, por vingança do abandono vivido, elas impedem o contato com o pai no intuito de atacá-lo, deixá-lo em falta para que sinta aquilo que elas viveram ao serem abandonadas, como eles a deixaram em falta de amor, de cumplicidade, de sexo, de companheirismo.
   Então a pergunta que sempre me faço: O que organiza o psiquismo dessa criança?  O que organiza a sua fantasmática?  Seria um saber que se sabe mas não se quer sabê-lo? Ou um saber que não se sabe? Seria o complexo edipiano? Seria o mito da horda primeva? Seriam fases de desenvolvimento mal organizadas? Seriam lutos mal feitos? Não simbolizados? Seriam falta de representações? Seriam impedimentos de elaboração de significação e resignificação da ausência paterna?  Como representar algo que está negativizado no psiquismo da mãe? Como significar alguém que a mãe odeia e esta é a única garantia da criança?

   Revisitando a história e suas vicissitudes, encontramos em primeiro momento uma anarquia absoluta reinando entre os sexos, ou seja, todos os homens pertencendo a todas as mulheres, poderíamos hoje fazer uma leitura desse momento como a de muita
promiscuidade. Em segundo momento os grupos foram se constituindo e só se relacionavam entre si ( ver Origem da família ,da propriedade privada  e Estado) ,  depois vem a monogamia – como diz Marx  - a maior invenção do século foi o complexo de édipo já que possibilitou através da interdição do incesto a construção  e ampliação da sociedade,  gerando muitas trocas sociais, econômicas, sexuais.  Surge a monogamia e com ela a apropriação da mulher , dos bens, e a conservaçào da propriedade. Como diz o provérbio popular “Ser mãe é uma  necessidade , enquanto ser pai é uma possibilidade” ,  já que ao longo dos anos o papel desse homem nomeado pai, era o de ser o  provedor de alimentos – provedor econômico??? Onde está o pai?  A única certeza que tinham em todos esses momentos era  a da maternidade. A mãe se engravidava do sol, da  lua ,da chuva, da terra que a  germinava. Vivemos desde tempos remotos numa sociedade matrilinear, no sentido de que cabe às mulheres a  concepção, educação dos filhos, o ensino da boa convivência familiar, o aprendizado da economia doméstica, a descoberta dos remédios que curam todas as nossas dores, o ensino do amor afetivo, das trocas afetuosas, o ensino da ética entre os irmãos , amigos, vizinhança. Ao homem, cabe trazer a caça para casa, ou seja, a construção de seu ser, de sua identidade já se inicia através de uma posse – posse de um bem material.
   Os motivos pelos quais  as pessoas têm me procurado na clínica são  devidos a relações muito intensas que as crianças e mães estabelecem entre si, o que gera consequências no desenvolvimento bio-psico social das crianças e produz relações de interdependência. Penso que é necessário que um terceiro ( não-mãe ) venha interceder nessa relação para que o sujeito se constitua como ser psíquico separado, independente e autônomo. Muitas crianças se tornam fóbicas, obesas –
devoradoras dos restos maternos, com sérios dificuldades na produção da escrita,  no entendimento dos fatores históricos da realidade, na construção de um saber sobre si mesmo, na construção de um eu corporal, imaginário e simbólico, inibições, timidez, vergonha, inveja, ciúmes, sentimentos de intenso ódio, competitividade exacerbada.  Como diz um amigo, a falta desse terceiro não pode deixar esconder o sol da alma e nem permitir que as palavras se calem. O que estamos vivendo seria uma ausência desse terceiro?Seria a falta desse terceiro o que estaria por trás desses sintomas??? Pergunta que traz inúmeras dúvidas e que requer um amplo estudo para que possamos nos aproximar de uma verdade ou de múltiplas verdades. Se faz  necessário que a criança veja, olhe para  o que não conhece e não sabe.... mesmo que esse sentimento lhe traga muita dor , o de saber que pode haver um outro que não a deseja ou que não a desejou, ou que não deseja a mãe e  a coloca no lugar de objeto de satisfação desta, a fim de se livrar de uma demanda de amor; e,  que há muitos outros que a desejam,  que a fazem sentir um ser desejado e por isso mesmo, desejante.
 Um fator importante na estruturação do sujeito psíquico é o brincar , e neste brincar está também implícito como os pais internalizaram o seu próprio brincar. O brinquedo tem um lugar importante na estruturação da subjetividade, já que o jogo-brinquedo é para a criança o seu primeiro objeto por onde ele escreve e se inscreve criando muitas brincadeiras. Penso em pais rígidos, obssessivoa, controladores, e que ao reprimirem o brincar e o jogar, o quanto estão produzindo nos filhos a inibição de uma autoria do pensamento, da escritura própria, a possibilidade de estarem construindo o próprio corpo  através do dar corpo ao brincar. Impedindo à criança de se mostrar e se fazer valer, ou seja, a ter valor enquanto sujeito criador. Ricardo Rudolfo nos diz que esse brincar seria o atravessador de todos os objetos de conhecimento que se produzem jogando, o que está em jogo seria também o corpo e a emoção. Para a criança esse brinquedo seria o espaço entre ela e o corpo da mãe. (Winnnicott)  ( revista 4 A Escrita}. Enquanto joga se vão armando laços intersubjetivos onde  a criança reconhece ao outro e o outro lhe reconhece enquanto ser. O brinquedo-jogar tem para a criança algo de vida própria, ele está vivo, e se a criança é impedida de ir-se construindo conjuntamente com suas inventividades, quanta dificuldade surgirá posteriormente, de brincar com suas próprias idéias, de mostrá-las ao outro, alargando a sua potência de  ser criador. Quantos sintomas podem ser produzidos a partir desses impedimentos. Uma questão que me tem tomado tempo em reflexões é o de encontrar respostas para articulação entre o brincar, o escrever e o mostrar a própria escrita.  É o caso daquela criança que sabe o conteúdo da matéria, mas que no momento da escrita, há uma falha. Não sai. A criança sofre uma inibição  impeditiva de se mostrar escrevendo. Há também o fator de que na escrita o sujeito se mostra para o outro. Esse outro seria representado como aquele que impediu o brincar?  E as mães que jogam fora os brinquedos ( que têm vida própria?), e a criança se sente como partes suas sendo destruídas, o que as faz sentir talvez como dejetos, restos mortos, ou pequenos assassinatos de sua alma? Como diz Ricardo Rudolfo, a criança ao escrever letras sobre um papel se repete algo com profundas diferenças do que se punha em jogo ... Ele fala da materialidade desse corpo que se escreve, e diz que a única maneira que o menino tem de subjetivar algo como corpo, seja como corpo próprio, corpo do outro, corpo do jogo-brinquedo, é através do brincar. E quando não consegue é porque só se deram adaptacões operatórias , mas não se deu um processo de escritura realmente subjetivante. Penso em uma criança que atendi, que se arrastava pela sala como um lobo, grunhia como um lobo. Em seu eu e corpo imaginário ficou inscrito que não poderia saber sobre sua origem.Poderemos pensar na questão do ser e da alteridade. A mãe lhe tirou o conhecimento sobre sua origem. Ela não pdia saber sobre o seu ser, então ao invés de  criar um espaço entre  ela e o outro, com a possibilidade de poder brincar de ser lobo e não sê-lo, restou-lhe a opcão  em ser algo que não fala, não pensa, não é sujeito desejante, mas um objeto bicho animado sem palavra, sem escritura própria, sem desejo, desejo de saber transformado em grunhidos. Ela era  desejada como alguém que não pode desejar saber, não pode ter acesso ao conhecimento, não pode indagar e nem dizer.  Para ela, só restava ser um lobo furioso com desejo de atacar . Segundo Ricardo Rudolfo, o brincar-jogar está na base de toda a corporeidade subjetiva ( corpo que não fala, que não brinca em ser ), mas que é o que o outro demanda – ser não pensante. Tudo que há de um corpo no sentido subjetivo, não se pode reduzir a coisa nem a um organismo biológico, não se pode cristalizar em uma forma, em uma identidade. Há jogos que foram em um momento e logo passam, e o que continua aí já não são joguetes. Será que poderíamos dizer que essa criança não jogou sendo o lobo, mas se colocou como sendo o lobo, encerrando o jogar, o brincar, pois o outro não lhe permitia outra saída, que seria a do dizer, denunciando que o pai não estava morto, e que ela o desejava, desejava sair da relação especular estabelecida com a mãe. Assim a mãe lhe dizia: O pai morreu. Nós sabemos que a criança se estrutura  a partir do olhar do outro sobre ela. No caso dessa criança, se não há quem os constitua como seres pensantes, se tornam coisas.
Osvaldo Saidon nos faz uma pergunta que considero relativa à essa questão que estamos discutindo: Que fazemos com a arte de viver ou como tratamos nossa vida em relação às artes diferentes de vivê-la? Será que quando a criança se coloca como sendo o lobo, é uma maneira de criar arte e de viver o personagem-lobo como arte de viver? Ao mesmo tempo que é um sintoma do silenciar-se, de uma morte psíquica, é também um desejo de continuar dizendo de forma animalesca aquilo que não pode advir em palavras, como nos diz Freud, o sintoma é uma tentativa de cura e ao mesmo tempo uma solução de compromisso entre um desejo e  uma defesa. No caso há o desejo de existir simbolicamente, tendo um sobrenome que contém sua origem e toda sua história, mas há que se defender por temor de perder o amor materno, já que vive esse amor como única garantia de sobrevivência. Se esta lhe falta, perde o chão que a sustenta , podendo advir uma psicose. Eu sentia nessa criança uma angústia profunda, a qual estava inscrita em seu corpo e em sua afetividade. Era arredia, não suportava aproximações, vinculações. Ela vivia a morte de um pai vivo. A mãe o chamava de falecido. Faltava à criança respostas para muitas perguntas que são fundantes e estruturantes do ser : Quem sou? Qual é minha origem? Na falta de uma palavra que a nomeia como ser simbólico, só pode se inscrever no corpo imaginário e simbólico  como coisa animal inexpressivo que grunhe. Assim construiu o seu território existencial para poder habitar o mundo e não sucumbir numa psicose. Ficava no limite entre a normalidade e a anormalidade. Na berlinda da vida ... Ao mesmo tempo ela produziu um acontecimento – só posso ser bicho, mas bicho forte e que ataca, se defende dessa selvageria dos grunhidos florestais, mostrando à mãe o que esta queria ocultar, que a criança deve se colocar como alienada em seu desejo de saber sobre sua origem, sobre o seu ser. A escritura irá colocar em jogo todos os acontecimentos que produzimos em vida.

Segundo Saidon , nos modos de existência, nos estilos de vida sempre tem uma estética da vida e uma ética. A dificuldade que nos produz a escritura, se inscrever-escrever-se como lobo, é justamente uma pergunta sobre a estética da vida, por ser uma indagação de como considerar o belo nela mesma – ser lobo é ser belo?  Já que ataca, se defende, se ama lobo, e o grunhido é como uma voz abafada, que nos coloca diante de um desejo de dizer, de denunciar, de se inscrever como sujeito de desejo. O estilo de vida se transformando em uma invenção. Parece ter sido necessário inventar uma forma de dizer o que era para ser ocultado, inventar uma nova possibilidade de vida.
Heloisa Antônia Franco

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