Há dois
Lacans, um, anterior a 1949, psiquiatra, preocupado com questões da
personalidade, provar a cientificidade desses fenômenos, através de um método
compreensivo. Visa estabelecer os fundamentos de um saber sobre o subjetivo.
Quer demonstrar que os fenômenos da personalidade tem uma intencionalidade, um
sentido.
É possível criar uma psicologia
Científica, ou fazer ciência da personalidade, que se limite às relações de
compreensão, ou de sentido?
Em primeiro momento, para responder a
esta questão, deveremos precisar os termos do problema, com o que é ciência,
Ciência Natural, da História, do homem. Quais são os critérios para tornar
determinados conhecimentos científicos.
No segundo momento, tentaremos
analisar, a possibilidade de tornar científica uma Teoria que se limite às
relações de sentido ou de compreensão. Recorreremos á tese de doutorado de
Medicina de Jacques Lacan “Da psicose Paranóica em suas relações com a
Personalidade”, defendida em 1932.
Em terceiro momento, retomaremos o 2º
Lacan, após 1949, e como ele reconsiderou a questão do Inconsciente,
estabeleceu-se a partir do significante, e como a teoria do inconsciente vem
ocupar um lugar muito particular no campo de discurso aberto pela indagação
filosófica; se distingue do discurso filosófico por afirmar uma verdade
puramente parcial, enquanto o discurso filosófico afirma que existem a Verdade
parcial e a total“o discurso filosófico, não importa de que maneira o tomemos,
parece incapaz de dizer o inconsciente”.
(Ajuranville, p. 12).
Dizem que para filosofar e
compreender o ser das coisas e do mundo, é preciso ser sábio.
Acredito que a sabedoria só é alcançada
quando se atinge um determinado saber transformado em poesia, pois se torna leve e parte do próprio
ser, corporificado.
Este é a tentativa de abrir um caminho
dos primeiros passos, no desejo, de aprender alguma vereda desse novo saber que
não se sabe.
Seria científico, a Psicologia que se
limite às relações de compreensão?
Penso que convém fazer uma definição de
ciência para que tenhamos instrumentos para podermos analisar a questão das
relações de compreensão, e chegarmos à algumas conclusões.
“Uma ciência é um sistema de apropriação cognoscitiva do real e de
transformação regulada desse real, a partir da definição que a teoria da
ciência faz de seu objeto. Uma ciência é um sistema de produção de conhecimento
acerca do real.
É o real que fornece condições para que se produza um conhecimento
sobre ele, quer dizer, é o real que determina o pensamento e não o pensamento que
determina o real. Em psicanálise o real é o ´pensamento`, mas esta contradição
é aparente porque como objeto o pensamento se opõe, como real, do pensamento
cognoscitivo que o estuda.” (Baremblitt, p. 17).
Não há nenhuma ciência
que possa impor um critério de cientificidade à outra, por mais evoluída que
seja, sem considerar a natureza específica da realidade de que cada uma se
ocupa, segundo Baremblitt.
O pensamento
epistemológico do Ocidente é dominado pelo Empirismo, que tem como pressuposto
de que seu método científico é o “método da ciência” por excelência, que é o
método da física e de outras ciências naturais. Isso significa que toda
disciplina que não seja igual à Física não é científica. Existem alguns
estudiosos que já acreditam na cientificidade da Psicanálise. A epistemologia
francesa, baseada nas postulações de Althusser, Miller, que fizeram
investigações sobre a Psicanálise lacaniana, ao ver de Baremblitt foi a
primeira espistemologia que começou a resgatar esse caráter de cientificidade, com
plenos direitos.
“Dizer que a Psicanálise é uma ciência
segundo a Epistemologia, é aceitar também, como critérios similares (não
idênticos) que a lingüística estrutural depois de Saussure, a Antropologia
talvez já a partir de Levy-Strauss, é uma ciência da História, o Materialismo
Histórico, é ciência; e a Psicanálise, por esse mesmo critério também o é. Não é ciência formal, não é ciência
natural, é uma das ciências chamadas impropriamente do homem, e mais pertinentemente
de ciências históricas e ciências da cultura: a ciência do Psíquico.” (Baremblitt, p. 19).
Falar em ciência, implica
em falar de critérios de cientificidade distintas à cada ciência da História e
da cultura. O primeiro critério que se exige é diferenciar um movimento
aparente no nível dos fenômenos, e um movimento real, no nível das causas. A
Segunda afirmação é que o nível das causas não coincide com o dos fenômenos. O
nível das essências se mostra e se oculta simultaneamente no nível das
aparências. Se o nível das essências coincidisse com o das aparências seria desnecessário a ciência.
A ciência do signo, da
cultura e da História pressupõe deciframentos dos movimentos do real, do
aparente e das leis que regem a transformações do real no aparente. As ciências
irão produzir um conhecimento crítico do
manifesto que explicita um sentido oculto, não sensível.
Para fazer o
deciframento, a ciência necessita de um
objeto formal abstrato próprio, quer dizer, uma teoria que dê conta de
seu objeto. “seu objeto é formal e é abstrato, é uma construção, está sempre
mais além de sensível”. (Baremblitt, p.19). Seriam as relações de compreensão,
relações de sentido, o objeto formal abstrato da Psicanálise Lacanina? Este
objeto que é não – sensível, que não se vê, que não se toca, mas que “está” no
sujeito psíquico?
O objeto formal abstrato
da Lingüística não é a descriação do ato da fala, mas sim, a linguagem. É uma
ordem formal abstrata, uma combinação finita de elementos formais possíveis,
que é capaz de gerar todas as mensagens infinitas da Língua. Os efeitos gerados
por essa fala não são confundidos com a fala em si. Assim como quando Lacan,
aborda a questão do Inconsciente, que se estrutura como uma linguagem. São as
possibilidades infinitas de combinações de representações, em processo de condensação
e deslocamento que vão permitir múltiplas relações de sentidos, também
múltiplos.
E o objeto formal da
Antropologia, não são os mitos, os ritos, os costumes, os totens, os animais,
os instrumentos, os tabus, o proibido, “ O objeto formal abstrato da
Antropologia é uma estrutura, quer dizer, uma combinação formal que pode ser
posta em operações lógicas que têm um número mínimo de lugares e de combinações
possíveis, que permitem explicar a variação infinita em que se manifesta o
texto dos ritos, dos mitos, dos totens, dos tabus, etc”. (Baremblitt, p.19).
Não é da ordem do sensível também, nem do referencial externo.
E o objeto formal
abstrato da história e da sociedade é o conceito de modo de produção: instância
econômica, ideológica e política. Esse modo de produção se realiza na forma de
ser dos povos e nações. Também não é da ordem do sensível.
“E a
psicanálise? Qual é o objeto da Psicanálise? É a conduta humana? Não, porque a
conduta humana se descreve. São os reflexos condicionais como querem alguns
analistas americanos? Também não. Esses conceitos são neurofisiológicos e não
fazem a especificidade do psíquico, O comportamento? Não. Esse é objeto da
etologia. O objeto da Psicanálise é a mente humana entendida como um âmbito
subjetivo vivencial, como o que ´eu sinto ou penso?` Não. Porque apesar de a
mente humana não poder ´ver-se`, cada proprietário de uma mente acredita que a
experimenta. As emoções? Não. Os sentimentos? Não. O objeto da psicanálise é
a sucessão de estrutura teórica que
produziu Freud para esclarecer efeitos incompreensíveis da vida psíquica como o
sonho, o sintoma ou o ato falho, a partir de suas causas inconscientes. A
primeira tópica: o Inconsciente, o consciente, o Pré-consciente. A Segunda
tópica: ego, id, super-ego. A teoria pulsional, o complexo de Édipo. Com esses
objetos, a psicanálise pode esclarecer a relação entre o aparente e o real.”
(Baremblitt, p.23).
A ciência sempre produz
um descentramento. Freud descentrou a consciência. A ciência necessita
diferenciar o nível das causas do nível dos efeitos, pensar que as aparências
nos enganam e que devemos estudar as formas em que as causas nelas se
manifestam e nelas se ocultam.
Lacan aceita duas teses.
Primeiro, que a psicanálise é uma ciência, segundo, recusa qualquer leitura da
Psicanálise que parta da noção empirista. Intenciona fazer uma ciência da
Personalidade, ou seja, uma psicologia científica que se limite às relações de
compreensão.
Para Althusser, a
psicanálise apresenta um conjunto orgânico dotado de estrutura formal análoga a
uma ciência. Possui uma prática (a cura), uma técnica (método analítico) e uma
teoria (que se relaciona com a prática e a técnica).
Se ela puder construir um
objeto teórico, irredutível a qualquer outra ciência ou projeto filosófico, é
uma ciência.
Lacan toma como seu
objeto formal abstrato as relações de sentido, através do método compreensivo.
Desvincula essa noção de fenomenologia, no sentido de que não faz dos fenômenos
o seu objeto, mas significações subjetivas que atuam no sistema de relações
humanas, em detrimento de uma ordem de
determinação fisiológica.
Lacan deseja fazer da
Psicologia uma ciência, e destacá-la completamente de suas origens metafísicas.
Pretende fazer uma diferenciação nítida do que é subjetividade experimentado e
do que se objetivamente constatato, para chegar a uma concepção de
personalidade. Entende a personalidade conceituada até o período de 1949, como
constituída partir de estados sucessivos
numa evolução continuísta, estados não separados por rupturas, mas sim
estabelecendo relações compreensíveis entre si
tendo um sentido, sem que se faça
necessário a descoberta de uma lei de sucessão causal. São estas relações de
compreensão que irão permitir encontrar uma ordem nas reações emocionais, nas
representações, nos atos e no simbolismo expressivo.
Desde 1930, Lacan
introduz a noção de estrutura, intencionando, fazer ciência da Personalidade.
Em sua tese, “Da Psicose
Paranóica em suas relações com a Personalidade”, pretende descobrir as
determinações da psicose, partindo de um ponto de vista doutrinário.
“portanto,
é desse doutrina que nos importa, sobretudo, fixar, a natureza e o alcance, o
valor científico e o valor metodológico.” (Lacan, p. 313)
“É o
postulado que cria a ciência, e a doutrina, o fato. O que faz o valor de nossa
ciência é a lei de economia que ela se
impõe nos postulados que a fundem. É nesse plano que pretendemos defender nossa
tese.” (Lacan, p. 314)
Lacan pretende fazer uma
ciência da personalidade através de uma física explicativa, quer dar conta dos
fenômenos psíquicos nas suas relações de compreensão. Se pergunta por que
indagar os fatos se o inatismo de seu determinismo já está decidido?
Compreender significa dar
sentido humano às condutas as fenômenos mentais que os sujeitos apresentam, não
ao fato em si, mas às intenções desses atos, representações, afetos. Faz
observações objetivas a estes fenômenos uma tentativa de se equiparar aos
métodos de observação próprios às ciências naturais como um observador do
comportamento animal.
Começa por definir o
desejo como um certo ciclo de comportamento. A psicopatologia será tomada e
observada em sua totalidade, visando sempre compreender a sua intencionalidade
objetiva, a tendência concreta de cada ato. A partir da demonstração dessas tendências,
de ciclos significativos e por um grande número de fatos, se chega a uma
relação de compreensão, e a uma ciência
da personalidade. Mas como? Para ser ciência se faz necessário que cada
descoberta científica tenha valor universal, quando isso não ocorre, ou seja,
quando apareceu as diversidades catacterológicas, Lacan explica esse
polimorfismo por uma variação de intensidade das tendências concretas que a
determinam. O ponto de vista econômico desempenha papel importante na ciência
psicológica.
Esses fenômenos da
personalidade são definidos a partir de três dimensões, por sua essência
humanamente compreensível:
1ª) Por um caráter individual – desenvolvimento biográfico, história do
sujeito – Ele se traduz para o sujeito – Ele se traduz para o sujeito segundo
os modos afetivos sob os quais ele vive sua história – são momentos únicos da história e da intenção individuais.
Essa dimensão não tem uso
científico, porque só há ciência do geral, não há ciência do particular. Seria
preciso universalizar toda a experiência humana, o que é impossível. A partir
dessa dimensão não se faz ciência da Personalidade.
2ª) Caráter estrutural – fenomenologicamente dado - momentos típicos do desenvolvimento histórico
e da dialética das intenções. Ele se traduz para o sujeito segundo as imagens
mais ou menos “ideais” de si mesmo que
ele traz à consciência.
Também não é por esse
viés que a ciência da personalidade irá se constituir. Por este viés caímos na
metafísica das essências e perdemos de
vista aquilo que causa o fenômeno psíquico. É, em si mesmo, estranho ao determinismo existencial que define toda a
ciência.
3º) Caráter social - cuja gênese
ela própria social – leis mentais de participação, explica e existência de
fato. Há aí, “uma certa tensão das relações sociais, que definimos
objetivamente pela autonomia pragmática da conduta e pelos elos de participação
ética que aí são reconhecidos – ela se traduz para o sujeito segundo, o valor
representativo pelo qual se sente afetado em relação a outrem.” (Lacan, p.31)
Somente a gênese social
daria para fazer a ciência da Personalidade. Segundo Lacan, é aí que se
encontra a chave da verdadeira natureza das relações de compreensão, mas não se
deve negligenciar nenhum dessas dimensões no estudo psicoclínico da realidade
da personalidade.
O ponto de vista social
pode ser tomado como científico em 2 direções: oferece fatos que são da ordem
do quantiticável (estão em movimento, são mensuráveis e extensivos) e oferece
uma armadura conceitual comunicável.
Lacan se apropria do
conceito de contrato social (Levi-Strauss), relação que já são determinadas a
priori “antes de qualquer experiência, antes de qualquer dedução indivisível,
antes mesmo que se inscrevam as experiências coletivas que só são relacionáveis
com as necessidades sociais, algo organiza esse campo, nele inscrevendo as
linhas de força iniciais.
É a função (. . .)
classificatória primária.” (Ogilvile, p. 42).
Se o fato é tomado
possibilidade de cientificizar por ser mensurável, extensivo, tendo portando
dimensões espacial, Lacan está atribuindo ao psíquico noções de espacialidade
pretendendo das dimensões espaciais à ciência da compreensão, tomando a física
como modelo, e não o modelo da História. Aqui nós vemos que Lacan ao mesmo
tempo em que rejeita o empirismo, o toma para dar conta da cientificidade da
Personalidade. O psíquico não é redutível ao espacial, se move na dimensão do
tempo e não do espaço.
Com relação á questão da
armadura conceitual, enquanto tomada científica da gênese social, Lacan traz a
linguagem, como fator de ligação entre as culturas e os indivíduos, os
colocados em uma “ segunda natureza”, definindo o seu lugar e sua função. Toma
de empréstimo de Lévi-Strauss a idéia de anterioridade. “É a lingüística, cujo
modelo é o jogo combinatório operando em sua espontaneidade, sozinho, de
maneira pré-subjetiva, é esta estrutura que dá seu estatuto ao inconsciente. É
ela, em cada caso, que nos garante que há , sob o termo de inconsciente, algo
de qualificável, de acessível, de subjetivável.” (Lacan, Seminário 11, p.16)
Há uma invariante em toda
as relações humanas. Segundo Foucault, a
maior contribuição de Lacan à Psicanálise, foi ter mostrado como, através do
discurso dos pacientes, “que são as estruturas, o próprio sistema da linguagem
– e não o sujeito – que falam . . . antes de toda existência humana, já haveria
um saber, um sistema que redescobrimos . . . o que vem a ser este sistema
anônimo se sujeito, o que é que pensa?” (Lacan, p.45)
Po que Lacan não matou o
sujeito, já que a Psicanálise lhe dava condições?
Lacan estava tentando
conciliar o inconciliável. Conciliar o fato
com a armadura conceitual. Conciliar a experiência humana e o conceito.
Foucault aponta as
oposições na filosofia francesa, por um lado esta, a filosofia da experiência, do
sentido e do sujeito (Sartre e Merleau-Ponty), por outro está a filosofia do
saber, da racionalidade e do conceito. Lacan retoma essa questão em seu
seminário das relações entre a ordem da ciência
e as ilusões do sujeito.
“Os
conceitos têm sua ordem de realidade original. Não surge da experiência humana.
As primeiras denominações surgem das
próprias palavras, são instrumentos para delinear as coisas. Toda ciência
permanece, pois, muito tempo nas trevas, estravada na linguagem. (Lacan,
Seminário, p.10)
Lacan, enquanto
psiquiatra, nomeia os fenômenos observados em seus clientes (intenções,
desejos, alucinações) que são os dados mediatos da consciência. “Essa ´má
linguagem`, a conceitualização efetiva da subjetividade, de seu sentido, deve
constituir um obstáculo. Afastar-se da má linguagem é arrancar o sujeito e seu
sentido ao sistema de vocabulário que regula sua inserção na filiação que o
reivindica habitualmente e á qual o entrega o cientismo, para apreendê-lo por
um ponto de vista inteiramente outro, o do conceito, na perspectiva de uma
conceptualidade não cientista (monista), mas diversificada e específica.”
(lacan, p. 36-7).
Quem conceitualiza é o
analista – objetividade com pretensão científica, mas esse mesmo analista tem
sua subjetividade. A experiência humana é observada através dos fenômenos
psíquicos manifestos no cliente, que tem também subjetividade própria.
Se coloca a questão da
cientificidade. A ciência precisa de um objeto. O objeto não é neutro, no
sentido de que o objeto psiquismo se constitui numa relação, numa estrutura na
qual o analista faz parte. Não há o desnível hierárquico, fator de objetividade
que se espere encontrar numa observação com pretensão científica.
Sujeito e objeto se
confundem. É impossível deixar de lado as intenções do observador nesse caso.
“Essa
ciência, conforme nossa definição de personalidade, tem por objeto o estudo
genético das funções intencionais, nas quais se integram as relações humanas de
ordem social. É uma ciência positiva.” (Lacan, p. 321)
O ponto de vista estrutural e formal
escapam a esse positivismo. Não têm dimensão espacial , mas sim temporal. O
tempo na história do sujeito, e em sua estrutura. Como explicar as relações de
compreensão sem espacializá-las?
Lacan coloca que o individual e o estrutural
estão contidos na dimensão social, através de leis mentais de participação.
Mas sabemos que o ponto de vista estrutural
e formal não são dimensões que dão cientificidade à psicologia, por serem da
ordem do particular. Constituem objetos de uma ciência não positiva, ou seja,
se Lacan toma essas dimensões, ele cai na fenomeologia. Por isso lacan propõe
para estudar os fenômenos mórbitos, o método próprio dos fenômenos de
personalidade, que ele chama de método compreensivo. Através deste se torna possível
a confirmação de suas premissas e o aparecimento de dados novos para o
progressivamento de sua aplicação.
Através desse método se busca compreender a
trama que determinou a forma de ser do sujeito do mundo. Determinações que
estão para além da Consciência do sujeito. Determinar a multiplicidade de
sentidos.
Para explicar essas determinações dos
fenômenos psíquicos, Freud recorre a uma explicação empírita, referenciada à
fixações da libido no percurso do desenvolvimento sexual, e tenta solucionar a
questão das lacunas da consciência, fazendo equivalências simbólicas. Lacan
queria fazer ciência, compreender as relações de sentido, o que as determinava.
Produz então, uma hipótese com caráter de axioma. Há uma INVARIANTE que é o responsável pelo determinismo
específico desses fenômenos.
Determinismo psicogênico. É um postulado
indemonstrável e que funda legitimamente qualquer ciência, e define para cada
ciência seu objeto, seu método e sua autonomia.
Lacan irá fazer psicogênese das funções
intencionais até 1949. Fazer teoria das funções intencionais é fazer teoria da
libido. As fases da libido tem uma psicogênese que irão determinar a forma de
agir sobre o mundo, determinam uma forma intencional. Esse determinismo é uma
condição A PRIORI do conhecimento científico. Deseja encontrar o determinismo
próprio da personalidade nas relações de compreensão que para que ele, é um
problema de tópica causal. Há uma invariante em todo sujeito que é responsável
por esse determinismo. Como vai chegar a esse determinismo? É através do
narcisismo na relação com o outro, que é uma relação universal.
Após 1949,
Lacan abandona a questão de psicogênese das funções intencionais, porque
se é postulado axiomático, deixa de ter sentido perguntar o que o determina. O
fato está aí já definido. O que interessa são as relações de sentido desses
fatos. Há organicidade do psíquico. Todo o sintoma tem uma causalidade
psicogênica. Há cadeias causais na produção de sintomas, tanto a nível
fisiológico ou lesional (dissociação de funções), quanto a nível de motivações psicogênicas.
Novamente se coloca o problema da dimensão
individual e estrutural. Há as
diferenças individuais e a forma particular de agir e incorporar o mundo. O
problema da caracterologia. A questão do inatismo, da constituição, da
hereditariedade, fatores que fundem as diferenças individuais quanto às
propriedades biopsicológicas, só deve ser relevante quanto se tratar de uma
função cujo desenvolvimento estiver ligado á história do indivíduo, ás
experiências que nele se inscrevem, à
educação pala qual passou.
À cada estrutura está ligado uma função
intencional. Se toma axiomaticamente, não é preciso encontrar gênese empírica
para ela. Fazer psicogênese das funções intencionais não é fazer psicologia do
desenvolvimento. Não há eu oral, anal, fálico como substituto de fixação
em uma dada fase, mas há um conjunto de
relações obetais oral, anal fálico . . .
O sujeito como é prematuro, necessita se
pensar como um todo, então ele antecipa e se constitui numa relação com o
outro. É isto o que determina as intenções, que constitui a intencionalidade do
sujeito é sua relação narcísica com o outro. A história de como o sujeito se
diferencia do outro é a história da psicanálise.
Dizer como as estruturas se constituem é
cair na metafísica, na fenomenologia. Por isso parte de um axioma. O sintoma é
posterior ao processo primário. À causa é anterior ao efeito. Após o
acontecimento, ele deverá ser significado.
Esse retorno a Freud se tratava para Lacan
de romper com todo psicologismo, antropomorfismo e finalismo freudiano, o que
há de novo em Lacan é “o fato de abordar essa questão pelo viés da trama
filosófica que ela representa (. . .) É esse ponto de vista que vai dar seu
espaço particular a toda a obra de Lacan, indissoluvelmente técnica e filosófica.”
(Juranville)
Lacan
substitui o empirismo freudiano pela linguística estrutural. Recusa os dados
sensoriais, coloca no lugar do empirismo um eixo hermenêutico. Tenta articular
a técnica com a filosofia. Responder a essas duas questões e não consegue. Tem
pressuposto filosóficos diferentes dos de Freud, mas não consegue criar uma
filosofia própria. Ainda está num viés epistemológico da Psicanálise. Além de
colocar a questão do conceito energético em toda compreensão manifesta do
comportamento, fala de tantas outras formas de estruturas conceituais, de uma
intencionalidade primitivamente social. Mas no âmbito hermenêutico fala de
função indentificatória do espírito do espírito e da irredutível diversidade do
fenômeno. “ são expressos das bases epistemológicas sem as quais seria inútil
falar de ciência desses fenômenos.” (Lacan, p. 336)
Está preocupado com as exigências que a
ciência impõe para um lado dado conhecido, e com a questão do modelo da Física,
positivista. (questão energética, determinismo exitencial sem o qual não há
ciência).
Está querendo encontrar relações de sentido
para os fenômenos, sentidos que só podem
remeter à ciência da História, ou a ciência do Homem. Mas, como quer que sejam,
ciência, como modelo da ciência natural, introduz a noção de lei, pensada na
tradição empírita, como enunciado universal, e relação de dedução. Só que a
História substitui leis por tramas. Então já não fala de leis, mas de regras,
normas. Porque a história apresenta diversidades, e a lei não resiste a casos
contrários. São sempre leis da natureza. As regras são humanas. A lei é do
domínio do ser, de como as coisas são. As regras do domínio do dever, de como
devem ser. Todos os pressupostos colocados por Lacan são regras, não podem ser formulação como leis, porque são humanos.
A exceção não liquida a regra. Se não é
doutrinada física, é normal. Se os fenômenos são racionais eles seguem regras,
são normativos. A normatividade implica em intencionalidade, em sentido
(sonhos, atos falhos . . .). Por isso, seguir regras é algo da ordem, ou da
dimensão social. Lacan não resolve essa questão. Está atento á questão do
sentido á nível individual e estrutural. Toma de empréstimo da física a questão
das leia física. Se o aparelho psíquico fosse descrito como processos
bioquímicos não haveria necessidade da Psicanálise. O social para Lacan está
fundado na experiência universal do sujeito que deseja o reconhecimento do
outro. Mas difícil se faz afirmar que essa luta pelo reconhecimento é uma lei.
È uma regra de funcionamento do desejo humano. Não há sujeitos que recusam essa
lei, porque ela é NORMA. N a psicanálise não há leis. A lei é uma questão
ontológica, do ser. Tratar de sujeito psíquico intencional é tratar de
convenções, do naturalizar a Psicanálise que o sujeito seria trazer um
inconsciente deve ser pensado como objeto no mundo, numa abordagem fisicalista.
Lacan
vai tentar dar dimensão física à intenção, libido com intenção, e descobrir
regras que o sujeito segue, e assim
chegar no determinismo das relações de compreensão. Existe uma regra invariante
do além, que é a regra pela luta do reconhecimento. Lacan vai mostrar que não
são estruturas biológicas nas esquemas,
como formas de se relacionar com o
mundo.
A estrutura fundamental e´ a fase do
espelho. Possibilitando contornar a questão genética e fugir da questão da
temporalidade.
Há dois métodos para se estabelecer a
existência de um objeto:
1º) se faz uma verificação experimental
como na química ou biologia. Isso permite uma previsão de certos acontecimentos.
Esta dedução se define A POSTERIORI.
2º) se pode tentar uma fundamentação ou
dedução lógica a partir de uma verdade evidente, procedendo então através do
raciocínio puro. Uma confirmação desse tipo seria A PRIORI.
Freud tentou comprovar a existência do Inconsciente,
através do 1º método e Lacan através do 2º.
O inconsciente ultrapassa o mundo, não é
não-consciência e portanto verificação experimental é impossível. O 2º método
também é impossível porque a linguagem é constituída por signos que exprimem significações,
e estes estão ligados ao mundo, não se
pode fazer dedução lógica desse Inconsciente como existente.
Lacan propõe então um significante
puro, que está alguém do signo. Há um sentido no
psíquico. “O psíquico é o sentido.” (Juranville, p. 23). Há então uma
anterioridade, algo que é estruturado, que é o sentido. Há uma antecipação
desse sentido feira pelo sujeito.
As interpretações dadas a estas relações de
sentido são ás vezes opostas, confrontadas com os fenômenos da linguagem. Como
justificar esses fenômenos, torná-los verossímeis? “Sem a legitimidade de tais
interpretações opostas, é difícil ver como que cada discursos do campo
filosófico possa ter consistência e reclamar para si uma objetividade, apesar
de necessária.” (Juranville, p. 73)
Por isso se constrói um INVARIANTE, e um
método de compreensão. Um método que vise a uma compreensibilidade de um sujeito particular. A cadeia significante, ou seja, as relações de sentido
que vão de uma representação a outra, de um significante a outro, é a própria
presença do desejo. O sentido é a unidade imposta pelo sujeito. E esse desejo é
dado a priori na linguagem. E a ciência não pode privilegiar nenhum sentido.
O que Lacan trouxe de novo foi introduzir a Psicanálise um questionamento
filosófico. Falar de teoria do Inconsciente, é o mesmo que falar de teoria do
“desejo inconsciente”, e para a filosofia, de uma concepção do “ ser como
desejo”.
O que é que caracteriza essa
anterioridade na consciência? É a atribuição de um sentido. Existe uma antecipação
do sentido.
No mundo há a presença de
signos, que pressupõe um determinado conhecimento. Ele não traz um
conhecimento. É o sujeito que dispõe antecipadamente do valor ou seja, da
significação do signo (Juranville, p. 38). È o sujeito que faz deste acontecimento
ou daquele comportamento um signo. Ele aparece como decorrente do próprio
sujeito, colocado e constituído por ele.
E se resumirmos o modo de antecipação do
sentido que aparece como característico daquilo que não é o inconsciente no
sentido freudiano, cabe sublinhar:
1)
que se trata
de uma determinação de real como decorrente do mundo do sujeito;
2)
que ele parece
inseparável da linguagem e da lógica, na medida em que a linguagem seria um
sistema de signos. Não restou a Freud senão a confirmação empírica para
estabelecer essa existência. No fenômeno linguistico existem o significado e o
significante, em todo fenômeno linguístico.
O signo é a representação da palavra, a
palavra representada, na medida em remete à representação da coisa.
Na língua como em qualquer sistema
semiológico (Juranville, p. 47) o que distingue um signo é tudo que o
constitui. É a diferença que constitui a característica, assim como constitui o
valor e a unidade. É a diferença pura, presente em cada um, que faz com que
cada significante signifique aquilo que significa. O que ele significa remete
àquele quem ele significa, e portanto ao sujeito.
Alguma coisa é significada para o
sujeito. Mas o que lhe é significado (pelo significante) é que se assujeite á
lei do significante – o significado do significante é o desejo e a castração, o
desejo como castrado. Deve ser castrado para desejar. A concepção lacaniana do
significante é inseparável de uma teoria do sujeito. A identificação
constitutiva do sujeito, segundo Lacan, é identificação com um significante.
“Um significante é aquilo que representa um sujeito para um outro
significante.” ( Lacan, seminário). Ora, foi este rigor conceitual que Lacan
introduziu na psicanálise. Lacan sustenta a descoberta de Freud ao assinalar a
diferença entre o sujeito do inconsciente aquele cuja causa é o significante, e
o sujeito de ser no mundo, o único para o qual pode haver representações. O
significante é o próprio ser.
A filosofia se dá como um discurso. A
própria Teoria do Inconsciente é um discurso. Se pretende ser rigorosa, deverá
então explicar como se constitui algo como um campo do discurso.
O discurso filosófico supõe o desejo de
saber a resposta e a uma pergunta e de alcançar a verdade, mas também uma
atitude fundamental de questionamento de verdade daquilo que pode ser dito
pelos outros discursos, porém, mais profundamente, por qualquer discurso. É o
questionamento filosófico que abre o campo do discurso.
Assim, esse campo pode ser chamado de
campo filosófico. Mas será suficiente dizer que a Teoria do Inconsciente, na
medida em que é um discurso, adquire seu sentido no campo filosófico? Esse
questionamento tem um objeto que é o saber. A indagação tem valor em si mesma,
não pelo saber a que poderia conduzir, mas pela experiência de não-saber que
pressupõe. O discurso é dirigido e deve ter um efeito, que é essencialmente o
de convencer. Pode-se dizer que todo discurso é MORAL, pois visa a levar a agir
de outra forma, ao introduzir princípios e fornece as razões deles. Na medida
em que é moral, o discurso se
caracteriza por sua impotência e sua (falsidade) (Juranville, p.64).
Os discursos do campo filosófico são
respostas à questão do ser na perspectiva de sua unidade. O lugar onde
concentra o caráter problemático do ser é a linguagem.
A experiência é, com toda certeza,
aquilo que se opõe ao A PRIORI da lógica e da linguagem em geral. Para o
empirismo, não existe verdade. A unidade que a linguagem confere às coisas não
é de modo algum uma unidade real, mas, fictícia, imaginária. Para ele não há nada
a desejar, nem mesmo o saber, o próprio viver é uma ilusão. O desejo valoriza
aquilo que ele deseja. Daí que o desejo é desejo do infinito, metafísico. Para
o empirismo existem apenas necessidades. Faltam-nos apenas objetos que não têm
sentido nem valor em si mesmo. E a filosofia pode ser salva na medida em que se
dedique a livrar o homem das ilusões que ela mesma produziu.
O discurso empirista é um discurso
consagrado a afirmar a impossibilidade do discurso. Ele afirma o caráter
ilusório do mundo com um todo organizado onde as coisas ganham sentido.
Para o discurso metafísico, a tese é
a que tudo encontra sentido no todo, de
sorte que tudo é um. E é contra ele que Lacan irá afirmar que não existe
universo do discurso. A Teoria do Inconsciente faz surgir algo que ultrapassa o
mundo e sua organização. O ser de tudo o que é consiste em pensar, segundo
parmênides. Para o discurso filosófico e metafísico há uma verdade (como
realização do desejo incluído no questionamento filosófico), mas é preciso pensar
o questionamento como contestação, como situação em que o desejo não é de modo
algum experimentado como preenchido, mas, ao contrário, confronta-se consigo
mesmo. Pensar, portanto, o desejo puro. De um lado, a verdade que se pode
chamar total, do pensamento realizado, e de outro, a verdade parcial do desejo.
De um lado a Psicanálise enquanto discurso filosófico e de outro enquanto
técnica numa relação a dois – analista analisando, em que se comunicam verdades
parciais.
Como são possíveis diferentes interpretações,
análises opostas para os mesmos fenômenos da linguagem? Que sejam justificadas
e verdadeiras? É impossível fazer ciência a partir de relações de sentido, que
sejam analisadas opostamente? Pensando no lugar de quem teoriza um dado saber?
De quem produz conhecimentos?
Sem a legitimidade de tais interpretações opostas, é difícil ver
como cada um dos discursos do campo filosófico possa Ter consistência e
reclamar para si uma objetividade, apesar de necessária. Para o empirismo, o que
é só pode ser provado no real sensível espacial e temporal. Por exemplo, na
linguagem seriam o som, o ritmo, a velocidade, ou seja, o fenômeno sonoro dos
fonemas que se sucedem no tempo e são enunciados num lugar do espaço.
Para Platão, na linguagem, o que é a essência, aquilo que é fora do
tempo e do sensível. Na linguagem, é a significação visada. Para ele, o ato da
visada significante do sujeito não faz mais do que reencontrar uma essência que
já está sempre presente (contemplada num ato de pensamento que é, ele próprio,
de fato, subtraído do tempo), assim como o saber segundo a fórmula do Fédon e
Menon, não é mais do que um relembrar-se.
O que é considerado por Platão para
captar o sentido da linguagem humana, a significação, é considerado pelo
discurso empirista como uma ficção produzida justamente pela linguagem.
Como Lacan resolve essa questão? As
relações de sentido são ficções ou objetiváveis? O questionamento filosófico
quer aprender o ser em sua verdade. Não é no nível do discurso, que tal
demonstração pode ser efetuada mas a nível de estrutura do discurso. Dentro da
estrutura do campo problemático da filosofia, talvez a resposta possa Ter
deduzidas a partir de quatro problematizações:
1)
Não existe
verdade;
2)
Existe uma
verdade total;
3)
Existem uma
verdade total e uma parcial;
4)
Existe uma
verdade, mas unicamente uma verdade parcial.
Há nessa 4ª teoria uma contestação
radical do saber, tal como implicado no questionamento filosófico.
A Teoria do Inconsciente postulada por
Lacan assume essa Quarta possibilidade, sob o nome de discurso analítico. É uma
Teoria que dá a resposta à questão do ser e de sua unidade. Existe apenas uma
verdade parcial, uma Teoria do desejo puro. A cadeia significante, a
articulação temporal de um significante, com outro, é a própria presença do desejo.
Há no significante o advento temporal de um sentido, que é a unidade de alguma
coisa que se desenrola efetivamente no tempo, mas como unidade subtraída desse
desenrolar.
É a dimensão formal, estrutural apontada
por Lacan nos fenômenos da personalidade. A criação de um postulado, de um
axioma como tentativa de formar científica a Teoria da personalidade.
O sentido é a unidade, enquanto imposta
pelo sujeito de uma diversidade sensível. O significante significa através de
sua diferença dos outros significantes. Assim, só é um do ponto de vista dos
outros. O significante é o indesejável e o desejante. Há uma articulação
temporal, momentos de articulação temporal: quando um primeiro significante
surge como desejável, ele é desejado do ponto de vista de um outro
significante, e o desejo não é outra coisa senão aquilo que faz passar ou tende
a fazer passar do segundo significante para o primeiro.
É um movimento que se efetua no tempo.
Daí a cadeia do desejo, segundo Lacan. Diferente de quando Lacan fala da dimensão
espacial dos fatos dos fenômenos da personalidade.
Para o empirismo o desejo é uma ficção,
porque o empirismo trata é de necessidades. Lacan situa-se numa perspectiva
genética que é cara ao empirismo. Pois, para ele, o desejo é dado a priori na
linguagem. O desejo não se apóia na necessidade. Há um a priori da linguagem, mas o homem teria que atualizar
aquilo que , a princípio, só existe potencialmente. Lacan rejeita a psicologia
genética de Piaget. E diz que os estágios da libido não se da ordem da pseudo
maturação natural, mas se organizem em torno da angústia da castração. É
preciso se quizerem seguir. Lacan, no que ele traz de realmente novo, dizer que
não ser acende ao desejo, e sim castração, que o desejo está lá desde o início,
não como virtualidade, mas como atualidades a partir da qual o outro ganha
sentido.
Lacan se ateve a um rigor lógico cada
vez maior. “Descobrir a verdade parcial e o desejo, como fez Lacan, exige que
assumimos plenamente a afirmação de Platão segundo a qual somente o divino é a
medida, a verdade total. Mesmo que ela efetivamente falte.” (Juranville, p. 83)
O que importa é o ato da fala. É aí que
se encontra o desejo. O sujeito do desejo inconsciente não é o sujeito
enunciado mas o sujeito da enunciação, onde Lacan situa a verdade parcial do
sujeito. O desejo não é o que a fala exprime ou pretende exprimir, mas o que a
fala constitui, o que ela é.
Nesse sentido, enquanto técnica de tratamento que se propõe a cura, é
insustentável, já que não se busca a eliminação do sintoma, mas a confrontação
com a verdade parcial do sujeito. Não é possível se falar em finalismo
utilitarista. O sujeito é essa cadeia de significantes, não há cura possível
nessa cadeia. O tratamento é um relacionamento do sujeito com a verdade de seu
desejo. A verdade total está positivamente excluída.
Se torna então impossível incluir essa
teoria do desejo num discurso filosófico. Mas há que se fazer estudos muito
minuciosos e exatos, com cautela, para podermos concluir de sua
impossibilidade.
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